CONVERSA AFINADA

Rapte-me, camaleoa

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Fotos: Carol Vianna

Cada dia mais mulher e confiante, Ana Cañas revela que sua relação a própria feminilidade foi avançando. Cheia de truques na manga, a cantora hoje parece um furacão, dominando a plateia e destilando força em interpretações com aquela pitada de atitude de uma roqueira com o toque do blues. Sem deixar de lado os momentos românticos em canções doces, Ana adora variar de personalidade e flertar com jogos femininos.

Dentro dessas brincadeiras, a moda é um jeito de se expressar poético, um artifício por meio do qual a cantora oscila entre papéis. Para a artista, a maneira que ela se veste e as atuais performances com uma pegada mais sensual refletem seu amadurecimento. “Gosto da sensualidade num lugar mais emocional, do jogo de mostrar e esconder. Antes eu era mais de vestido, agora sou mais roqueira. Saí da menina e fui para a mulher”, conta ela, que cita Simone de Beauvoir: “A gente não nasce mulher, se torna mulher”.

Dona de uma “sensualidade felina” e uma bela cebeleira digna de uma (cama)leoa, com a qual brinca em seus shows, Ana fala a língua dos gatos. Além deles, a cantora é apaixonada pelas musas do jazz, que são motivo de inspiração para ela. O que mais a inspira? “Inícios e fins de relacionamentos. São momentos de estado latente, sentimentos à flor da pele”. No fim das contas, Ana é uma gata movida pelo amor.

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Fotos: Natália Britos | Ramon Moreira

 

Confira a entrevista na íntegra:

Seu Instagram é repleto de referências artísticas femininas. Seu lado feminino, menina mulher, salta aos olhos. Como é sua relação com sua feminilidade?

Realmente eu tenho um cuidado para não exaurir as pessoas com muita informação. Acho importante falar o que é do coração. Tenho esse lado doce e outro agressivo. Deve ser uma característica do meu espírito que transparece no meu perfil do Instagram. Minha relação com minha feminilidade foi avançando. Como bem disse Simone de Beauvoir, a gente não nasce mulher, se torna mulher. A gente vai se descobrindo. A gente tem que se libertar de padrões, de cobranças nossas, das gaiolas. A gente se desprende uma hora, a portinha está aberta, mas não voa. Uma hora a gente se assume mulher, aprende a não se importar com a opinião alheia. Meu lado menina nunca perdi e não gostaria de perder. Tenho uma criança interna que me faz feliz também. A mulher veio mais tarde, quando fiz o clipe com o Ney Matogrosso (em 2012), que tinha uma pretensa sensualidade, não banalizada, como acontece muitas vezes. A convivência com ele me ajudou muito, foi um aprendizado nesse ponto. Ao longo da vida a gente vai se libertando mesmo. Gosto da sensualidade num lugar mais emocional. As francesas sempre foram minhas referências nesse sentido: Brigitte Bardot, Juliette Binoche. Acho que a sensualidade tem a ver com questão da inteligência, do charme delas.

Você se considera uma mulher felina. O que é ser felina para você?

Tem esse mistério, os felinos são muito solitários, sensuais, belos, misteriosos. Falo a língua deles. O gato ensina a respeitar o tempo do outro, porque o carinho é quando ele quer, não quando você quer, diferente do cachorro. São animais poéticos em tempos distintos, mas me identifico com esse movimento dos gatos, gosto muito de tomar banho de sol, sou ligada a energia solar. Também tem os rituais noturnos deles e essa questão de serem animais tabus, uma grande injustiça social perante os gatos. Ele é misterioso por natureza. Também acho a onça um animal fascinante, de poder. Uma pessoa muito espiritualizada já teve um sonho no qual eu era uma onça.

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Foto: Amanda Fogaça

Você começou a cantar quando descobriu a Ella Fitzgerald e tem uma tatuagem da Billie Holiday no braço. O que as musas do jazz representam para você?

Elas foram essa descoberta de um caminho. Não sabia qual era minha vocação, só sabia que não tinha talento para ser atriz. De repente descobri a Ella Fitzgerald, que mudou minha relação com a música. Comecei a viver de música e aí a coisa seguiu. O que me encanta na Billie Holiday é que ela tem uma voz pequena, mas um poder de interpretação que me tira do lugar. É como padecer no paraíso e sofrer ao mesmo tempo. Ela é de outro mundo, transmutou a dor de vida numa obra magistral, atemporal pelo resto dos tempos. Tem horas da vida que tudo que você precisa é ouvir Billie Holiday.

Enxergamos um amadurecimento seu como artista, com presença de palco e uma imagem cada vez mais forte. Você se sente mais confiante hoje em dia?

Eu fui achando um jeitinho de botar os bichos para fora envelopando o melhor essa situação. Quando eu era mais jazz, destoava mais essa atitude visceral. Fui me envolvendo com essa pegada mais rock, blues, exteriorizada. Durante minha carreira, fui encontrando esse caminho, que casou mais a atmosfera do que eu queria realizar. Tem a ver com encontrar ser o que é, um encontro consigo mesma. Nunca tive a ilusão de que a gente nasce sabendo o que é. São altos e baixos, o caminho é doloroso, mas a gente vai encontrando.

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Foto: anacanas.com

Você tem um lado estético/plástico, bastante apurado. O que é a moda para você? Qual é o papel dela na sua vida?

Eu acho que a moda é um jeito de se expressar poético. Adoro a ala dos anos 70, a calça boca de sino, cintura alta, que valoriza a cintura. Não gosto de ser vítima da moda, prefiro achar meu estilo e seguir. Nunca quis ostentar, mas buscar algo que me traduzisse, com simplicidade e alma. Sou mais vintage, a modernidade fica mais pelo meu discurso. Gosto do estilo meio boho, da sensualidade roqueira, do jogo de mostrar e esconder. A sensualidade é um lugar para brincar. Antes eu era mais de vestido, agora sou mais roqueira. Saí da menina e fui para a mulher. Às vezes quero ser mulher, mas em outras horas quero ser bicho grilo. A delícia de ser mulher é flertar com esses jogos. Tenho meus truques na manga. O homem tem uma linguagem mais limitada neste sentido. As mulheres podem variar mais de personagem.

Quando você sentiu essa transformação de maneira mais nítida?

Quando me separei do primeiro casamento. Foram 10 anos numa relação e saí mulher. Foi gradual.

Quantos anos você tinha?

33 anos.

O que te inspira?

Começo de paixão e separação. São momentos de estado latente, sentimentos à flor da pele. O cinema também me inspira, principalmente o cinema europeu: Fellini, Bergman, Antonioni, Nouvelle Vague. Cinema brasileiro também, Glauber Rocha. A vida inspira. Todo dia tem uma lição para escrever uma música.

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Foto: Carol Vianna

Pingue-pongue com Ana Cañas:

Instagram do momento… Adèle Exarchopoulos.
Sonho em cantar com… Criolo, Rita Lee, Tim Maia.
Peça-chave no armário… Chapéu preto, botas e óculos grandes.
Mais inspirador em mim… Minha sinceridade, história de vida. Cair e levantar.
Vício/não passo um dia sem… Cigarro de tabaco natural, pôr do sol, meditação.
Sua marca registrada… Jogar a real.
Nos fones… “Fatal” da Gal Costa, Rolling Stones, Caetano dos anos 70 (“Transa” e “Qualquer Coisa”).
Na tela… Documentários do Netflix. “Requiem for the American Dream”, “I am not your guru”,  “Penny Dreadful”, “Breaking Bad”, “Arquivo X”, “House of Cards”, “Abraço da Serpente”.
Na mesa… Comida natureba, sou vegetariana. Legumes, frutas, grãos, suco verde, água.
Na mesinha de cabeceira… “O Livro de Mirdad”, de Mīkhāʼīl Nuʻaymah. “Tao te-ching”, de Lao-Tse. “O Evangelho é Essênio da Paz”, de Edmond Bordeaux Szekely.

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