Robótica a serviço da transformação social

Engana-se quem pensa que a robótica é feita apenas de inteligência artificial. Pelo menos ao se tratar da ROBÔLIVRE, start-up que leva a ciência para escolas públicas do Recife e pessoas leigas no assunto, estimulando a criatividade, a curiosidade e perspectiva de futuro dos jovens. O resultado é lindo de ver.

A plataforma foi criada por Henrique Foresti, mestre em Engenharia Mecânica que diz ser fascinado por esse universo desde pequeno. Para ele, a robótica é multidisciplinar e se manisfesta, antes de tudo, nas artes e no comportamento das pessoas. Foi com inteligência emocional que o engenheiro decidiu difundir seus conhecimentos e mostrar que a tecnologia não é tão complicada assim.

Hoje é dia de ter uma Conversa Afinada com Henrique, que revela como criou o projeto e conta histórias emocionantes. Fica aqui nosso desejo que a ROBÔLIVRE continue a transformar vidas, construindo robôs e desconstruindo a ideia de que essa é uma ciência para poucos. Se depender dele, pode apostar que não!

Robótica a serviço da transformação social

Confira a entrevista:

Como e quando começou o projeto Robô Livre?
Em 2005 divulguei na internet o projeto do robô que desenvolvi durante o mestrado. Era o MNeRim, um bípede de 320 mm de altura capaz de andar e fazer movimentos, como chutar. Meu intuito era que outras pessoas pudessem construir seus próprios robôs e melhorar o projeto. Até 2011, como pouca gente havia acessado a plataforma, construí um laboratório de robótica numa escola estadual e comecei a dar aulas para os estudantes. No ano seguinte, mais pessoas se interessaram pela iniciativa, então construímos um negócio social para ampliá-la. Em um projeto financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), desenvolvemos nossa metodologia de ensino em parceria com o Centro de Educação, o colégio de Aplicação da UFPE e a Universidade da República do Uruguai. Ainda em 2012 lançamos nossa rede de desenvolvimento colaborativo, que permite qualquer pessoa compartilhar seus projetos de robótica. A start-up ROBÔLIVRE foi fundada em 2016 e, além de manter a infraestrutura da plataforma, oferece produtos ligados à iniciativa.

Robótica a serviço da transformação social

Como o projeto funciona hoje em dia?
O nosso propósito é realizar transformação social com a robótica. Para isso, precisamos chegar às comunidades, convencer as pessoas que é fácil fazer robótica, realizar formação com aqueles que se interessam e criar oportunidades para eles. Conduzimos encontros semanais com os estudantes, que constroem robôs, aprendem a lidar com a tecnologia e se interessam por seguir carreiras na área. Através de parcerias com empresas, executamos ações que envolvem eventos e palestras de desmistificação de tecnologia (levamos robôs e apresentamos a robótica para a comunidade), projetos de experimentação (aulas semanais em escolas e institutos) e formação de centros de desenvolvimento colaborativo (espaços onde acontece pesquisa aplicada em robótica). Também realizamos eventos em shoppings centers, executamos programas de experimentação em escolas privadas e no laboratório da nossa sede, desenvolvemos e comercializamos produtos de tecnologia e apoiamos projetos de pesquisas em universidades.

Quantos jovens já aprenderam com vocês?
Atualmente temos mais de 6 mil pessoas compartilhando projetos na plataforma. Também já impactamos cerca de 10 mil pessoas em nossas palestras e oficinas pontuais. Já formamos mais de 600 jovens.

Robótica a serviço da transformação social

Quantos são os técnicos e alunos de robótica do projeto hoje?
Temos 7 multiplicadores trabalhando diretamente e nos programas permanentes estamos atendendo cerca de 300 jovens atualmente.

Alguma história específica que gostaria de nos contar? Sobre algum aluno que tenha entrado no projeto e mudado de vida?
A gente tem muitas histórias lindas. Vimos várias pessoas participarem conosco e se encaminharem na vida, mas gosto de contar uma em especial. Clécio concluiu o Ensino Médio participando de nossa formação. Dissemos a ele que continuasse estudando e assim conseguiríamos um estágio ou uma bolsa de pesquisas. Após um tempo nos encontramos, Clécio disse que estava trabalhando com serviços gerais e que havia se matriculado numa faculdade. Alguns dias depois nos vimos novamente e ele contou que seu chefe não o havia liberado para sair meia hora mais cedo para conseguir assistir às aulas. Naquele momento tínhamos acabado de fundar o Robolivre e o convidamos a ser o 1º colaborador da start-up. Ele iniciou a faculdade e se tornou um multiplicador da plataforma.

 O que seus alunos criaram de mais bacana após passar pelo curso? Gostaria de destacar algum projeto?
Vou destacar o Cérebro. A partir de um infográfico que os meninos estavam estudando em ciências, que identificava por cores as áreas do cérebro responsáveis por cada sentido (tato, audição, olfato e visão), eles construíram um artefato composto por sensores e luzes led que representavam com intensidade de brilho cada um dos sentidos. Como resultado, além do desenvolvimento pessoal dos estudantes em cada tecnologia que foi necessária para a construção do artefato, foi criado um objeto artístico que fortalece a ideia de que a robótica não está relacionada apenas às áreas de estudos das engenharias e ciências exatas, mas às artes e às ciências humanas.

Quais características são importantes para um bom especialista em robótica?
Vontade e curiosidade de saber como as coisas funcionam, disposição para desconstruir e ressignificar objetos e organização para conduzir projetos e pesquisas.

Como é fazer parte de um projeto tão transformador?
Sinto gratidão por poder atuar com o nosso time e imaginar que podemos contribuir para o aumento das experiências na área da robótica e na decisão de algumas pessoas em dedicarem seu tempo à pesquisa e multiplicação de conhecimento.

Qual é o impacto do ROBÔLIVRE na sua vida?
O ROBÔLIVRE me permite trabalhar com o que eu gosto, faz com que me sinta útil ao impactar a vida de várias pessoas e permite que eu me divirta interagindo com os colaboradores que são grandes amigos.

Pretende levar para mais lugares além de Recife?
Atualmente, executamos projetos de transformação social no Recife e no interior de Pernambuco, como Belo Jardim, no Agreste. Já rodamos todo o país com eventos, palestras e fazendo parcerias com grupos de pesquisas. Temos gente para iniciar projetos em vários estados e pretendemos viabilizar em breve.

O que é Antropologia da Moda? O que leva uma pessoa a adquirir determinada peça? De que forma a sociedade e a individualidade influenciam nessa decisão? Hoje é dia de ter uma conversa afinada com a doutora em Antropologia Social Hilaine Yaccoub, que esclarece essas questões e reflete acerca do papel da moda na nossa sociedade.

Consultora independente, pesquisadora de Antropologia do Consumo e palestrante, ela atua há mais de 15 anos no mercado, explorando sua habilidade especial em lidar com mercados, negócios e pessoas. “Sou uma entendedora de gente. Procuro saber o porquê das coisas serem como são, as razões das pessoas, como elas pensam, como expressam sua historicidade através das escolhas de consumo e gosto”, explica a antropóloga, que considera a moda uma forma lúdica de expressão.

Confira a entrevista:

O que é Antropologia da Moda? Como ela nos ajuda a entender a sociedade contemporânea?
A moda é uma construção cultural, exprime identidades, momentos históricos, estratificação social e não há sociedade que não haja estratificação. Através do que se veste, emitimos mensagens, a moda é o resultado de uma tensão paradoxal entre o desejo de imitar os outros e o de nos distinguir. Como é um fenômeno intrinsecamente imerso dentro de uma expressão de cultura, a Antropologia da Moda é uma área que visa entender os significados utilitários e simbólicos acerca dos ornamentos, das expressões e dos signos de um tempo, ou de um determinado grupo. Assim nos ajuda a entender dinâmicas socioculturais, protocolos de ação e expressões de signos de poder, beleza, etc.

Qual é a importância dela na Antropologia do Consumo?
O consumo está presente em todas as sociedades humanas, a economia e o próprio consumo não se destacam porque encontram-se enraizados na vida social, e suas práticas não se distinguem ou se separam das demais práticas sociais. Ou seja, o consumo está naturalizado nas nossas ações cotidianas, consumimos o tempo inteiro sem perceber. As pessoas nunca consomem somente coisas e suas respectivas funções utilitárias. Elas consomem os sistemas classificatórios, as constelações de valores e de significados nas quais os bens estão incluídos e imersos. Faz parte de um dos recursos que temos para nos distinguir, nos incluir socialmente. As pessoas não consomem roupas, elas consomem o que a roupa significa em dado contexto.

Qual é o papel da moda na formação da identidade das pessoas e, consequentemente, da sociedade?
A moda é uma linguagem, é uma expressão no espaço-tempo. Através da moda construímos máscaras sociais, nos vestimos de mensagens. Uma camiseta com determinada frase é um outdoor do que se acredita. O uso de um jeans em um evento formal também traz um significado. A moda é a forma lúdica dos indivíduos se expressarem, destacando-se ou simplesmente obedecendo protocolos de ação. Sempre pensamos em indumentárias específicas para certas ocasiões, ou simplesmente o fato de achar que não se pensa e “usar qualquer coisa” já é uma escolha. Moda reflete nosso gosto, que é formado por uma identidade social influenciada pelo nosso repertório e referências para apreciação das diversas formas de expressão artísticas.

A moda é uma maneira de se diferenciar ou se sentir parte de um todo?
As duas coisas. Como disse antes, a moda é uma forma de distinção e inclusão social. Em determinado grupo se pode ousar e de repente usar acessórios que chamem atenção e seja percebido como alguém supercool e antenado, e para outro grupo que está habituado a investir em acessórios simplesmente não se destacar por isso, mas sentir-se parte daquele conjunto de indivíduos que partilham dos mesmos gostos ou afinidades para adereços.

Se você pudesse escolher 5 palavras/termos para relacionar com a moda, quais seriam?
Identidade, cultura, mensagem, flexibilidade, escolha.

A forma que uma pessoa se veste revela o que sobre ela?
Somos expressão daquilo que escolhemos. Temos à mão um shopping center de estilos, e podemos ainda assim misturar, customizar, diversificar os usos das coisas. Cores, tecido, estilo da tatuagem, corte de cabelo, modos de usar acessórios e roupas revelam muita coisa sobre quem as usa, quem escolheu e não é sobre compra, mas sobre a arte de juntar as peças e combinar itens para enviar uma mensagem. Mesmo que alguém diga que não foi intencional, não importa, vivemos em  sociedade, e em todas as sociedades, das mais tradicionais como tribos remotas às tribos urbanas, revelamos o nosso estado através de moda. O que muda é a forma de como se expressar.

Por que muitas pessoas criam uma relação de afeto com roupas?
Porque elas fazem parte de memórias de uso, ou de um desejo muito postergado de compra. Certa vez depois de uma palestra sobre antropologia da moda, uma pessoa me procurou para relatar uma história. Ela era uma jovem estudante que iniciou sua vida profissional como auxiliar de escritório num renomado escritório de advocacia. Ela se vestia de forma simples, não tinha muito recursos para investir na sua aparência, mas percebia como as advogadas montavam seus looks, cores, modelagens, e uma coisa chamou muito atenção foi a marca de sapatos que costumam usar. Aquela marca ficou na cabeça daquela jovem por muito tempo até que ela conseguiu comprar uma sapatilha da marca. Para ela foi tão importante que parecia que estava comprando uma joia (palavras dela). Ela construiu uma relação de afeto, na verdade a sapatilha era um objetificação de sucesso, um troféu de que ela poderia conseguir tudo que quisesse através do esforço e trabalho.

Além disso, o que usamos nos remete a uma história que vivemos, a primeira saída com o namorado, ou o vestido de casamento, ou o que usamos na nossa formatura, atribuímos significados simbólicos porque os objetos expressam sentimentos, na verdade eles intermeiam afetos, relações sociais, etc.

Como as redes sociais vêm revolucionando a relação dos consumidores com seus objetos de desejo?
As redes sociais viraram uma grande vitrine de consumo e desapego. Como estamos num campo imagético, conseguimos passear por vários “corredores” de shopping sem sair de casa, na palma da mão. Vemos pessoas que admiramos usarem determinado corte de cabelo ou peça de vestuário. Já nos sentimos instigados a farejar de onde é, quanto custa, se é possível comprar pela internet. Ao mesmo tempo há uma tendência muito forte em vender ou comprar itens usados, as fotos nos garantem bom estado das peças e seguimos nessa busca por barganhas. Nos tornamos cães farejadores de trufas, os mais treinados encontrarão as riquezas que existem na web com maior facilidade.

Durante a vida, podemos mudar de estilo. Até que ponto essa transformação é um reflexo social e até que ponto é uma mudança de comportamento que traduz as diferentes fases da vida?
Possuímos códigos de conduta em todos os contextos de vida. Esses códigos mudam conforme o tempo, mas mesmo que alterados são evidenciados e cobrados socialmente. Se temos determinada idade para iniciar a vida profissional, temos necessariamente que nos vestirmos para tal ocasião. A não ser que nossa profissão nos dê maior elasticidade de escolhas do que usar. Ao me transformar em consultora e falar diretamente para CEOs de grandes companhias, eu tive que mudar minha maneira de me vestir. Aprendi a investir em uma aparência que condiz com minha identidade pública, a que eu de fato gostaria de transmitir. Acredito que um personal stylist ou um consultor de estilo é de grande relevância na vida de qualquer pessoa quando há dúvidas sobre qual a imagem que se transmite. Mudamos de cargo, faixa etária, corpo, nos tornamos mães. Como fazer para transmitir a imagem da nossa melhor versão? Somos avaliados, classificados, medidos, qualificados a todo instante. Um esmalte descascado para um determinado grupo pode parece supercool, mas para outro um sinal de descaso, desleixo, etc.

E a sua relação com a moda, como é?
Depois de mudar meu guarda-roupa quando saí do mundo universitário/acadêmico para ser uma consultora, aprendi que poderia investir em peças minimalistas, em slow fashion, em tecidos que tenham boa duração e caimento. Eu amo moda, adoro acessórios e gosto muito de produtores locais. Me considero extremamente perspicaz em encontrar peças que se adequem ao meu corpo, eu acredito em uma moda que me sirva, e não o contrário. No armário tenho peças que vão desde o 44 ao 46, justamente porque oscilo de peso com frequência, dependendo do humor, do período que esteja, se trabalho mais na rua emagreço, se trabalho mais de casa engordo. Pode parecer um verdadeiro terror, mas com o acervo que montei vou adequando as peças ao meu estado.

Como você descreve seu estilo? Como ele se relaciona e reflete com seu estilo de vida?
Eu sou uma antropóloga bem-vestida, com uma base minimalista e uma paleta neutra, tecidos de caimento que me dão fluidez e prazer ao toque, preferencialmente os que não amassam, pois viajo bastante e preciso de conforto e elegância. Os colares de miçangas ficaram no passado, mas as sementes continuam fazendo parte do meu acervo, hoje são biojoias que contam histórias de viagens ou de produtores locais que amo. Os sapatos, em sua maioria, também são feitos à mão, primam pela qualidade e durabilidade. Eu não me importo de pagar caro por saber a procedência, conforto e beleza de determinado item.


Vestidas de amor de sobra

Com a Vanessa Campos, a vida é amor de sobra. Para dar, sem vender. E essa “sobra” vai além: dos tecidos de marcas de roupa reunidos por ela para confeccionar vestidos e aquecer corações de meninas em alta vulnerabilidade social ao redor do mundo. Embaixadora da ONG Dress a Girl Around The World em Portugal, a brasileira Vanessa hoje se dedica integralmente a esse lindo projeto que, junto com a ajuda da Maria Filó, ao todo já doou 500 mil vestidos a 81 países.

A vontade de fazer o bem acompanha Vanessa por longa data. Se no passado ela alfabetizou voluntariamente funcionários da faculdade onde estudava, hoje entrega o 1º vestido da vida de milhares de meninas. Ao mesmo tempo em que as protege e melhora autoestima delas, proporciona um novo propósito para a vida de senhoras que tornam-se costureiras do projeto.

Antes disso, trabalhou durante 23 anos no mercado financeiro, até ter condições de retomar os mesmos sonhos da juventude: fazer a diferença na vida de quem precisa. Para Vanessa, a vida não a satisfaz de só estiver boa para ela. Um desejo para o futuro? Alçar novos voos como piloto voluntária.

Que nem o céu seja o limite para essa mulher tão generosa, admirável e inspiradora!

Vestidas de amor de sobra

Conta um pouco da sua trajetória para a gente.
Estudei Letras, fiz pós em Comércio Exterior e MBA em Finanças. Trabalhei 23 anos no mercado financeiro. E sempre amei viajar.

Quando e como decidiu se tornar ativista social?
Sinceramente não me considero uma ativista social. Eu só gosto de fazer o bem. Comecei a fazer vestidos para o Dress a Girl americano em fevereiro de 2016. Quando me mudei para Portugal, fui convidada para ser a embaixadora do projeto aqui.

Era uma vontade antiga ou te deu um “estalo”?
Eu sempre ajudei as pessoas que estavam a minha volta que tinham uma vida mais difícil que a minha. Fazer o bem me faz bem e não sei ser diferente disso.

Já começou no Dress a Girl?
Não. Comecei quando fazia faculdade. Na época um grupo de alunos tomou a consciência que era  um absurdo estudarmos em uma universidade  e termos funcionários analfabetos. Então reunimos alunos de várias áreas, o pessoal de Engenharia dava aulas de matemática, o pessoal de Letras cuidava da alfabetização, etc. Dávamos aulas para os funcionários do bandeijão, da limpeza e do jardim. Ali, há 30 anos, aprendi o conceito de solidariedade. A gratidão dos funcionários por não serem mais analfabetos me marcou para o resto da vida.

Vestidas de amor de sobra

Você tem contato com as meninas que ajuda?
Quando viajo sim, tenho a oportunidade de entregar os vestidos pessoalmente a elas, mas fora isso não. Lidar com a realidade da África não é fácil e manter vínculos seria muito complicado.

Qual é a sensação de fazer parte desse projeto e ajudar tantas crianças?
Em pouco mais de 1 ano, sem aceitar um único centavo em dinheiro, já distribuímos mais de 7200 vestidos por 12 países da África. A sensação de poder dar o primeiro vestido novo da vida de uma menina é uma delícia. Infelizmente, as meninas na África ainda são as menos favorecidas. Quando damos um vestido, muitas vezes temos que insistir, porque elas nem acreditam que os vestidos são para elas. Nós ainda tomamos o cuidado de colocar uma calcinha dentro de cada bolso e quando elas descobrem é uma alegria. A cereja do bolo!

Vestidas de amor de sobra

Você é mais feliz hoje? Esse encontro te mudou?
Mudou e muito, eu sempre tinha uma inquietude que me fazia pensar constantemente em alguma forma de fazer a diferença na vida de alguém. Eu sempre olhava a minha volta, porque a vida não me satisfaz se tiver boa só para mim. Hoje sei que fazemos a diferença na vida de muitas meninas que recebem seu primeiro vestido novo. Damos a elas proteção, dignidade e melhoria da autoestima. Paralelo a isso, fazemos a diferença na vida de centenas de senhoras que costuram estes vestidos. Proporcionamos a elas um novo propósito. Muitas dizem que não tinham motivo para acordar, para tirar o pijama ou para tomar banho e hoje acordam animadas para costurar os vestidos. Muitas destas senhoras relatam melhora de depressão, ansiedade e outras doenças afins. Hoje, além de estar implementado em 22 ateliês solidários espalhados pelo país, o projeto tem sido implementado em vários centros de idosos e alguns médicos já têm recomendado o projeto como terapia ocupacional. Então é muito bom saber que fazemos a diferença na vida de tantas pessoas.

Vestidas de amor de sobra

O que aprendeu de mais precioso nessa jornada?
Aprendi que precisamos de muito menos para ser feliz. Na escalada da vida, nos impomos padrões compatíveis com nosso modus vivendi que, por melhor que seja, não lhe satisfaz se não fizer parte da sua essência. Quando pensei em sair do mercado financeiro, onde trabalhei por 23 anos, fiz uma reflexão do que eu queria quando tinha 20 anos de idade. Naquela época, eu já sabia o que queria, mas não tinha dinheiro para realizar. A vida nos envolve num ritmo louco e, quando a gente se dá conta, passou a ter ambições que não nos dizem nada. Então nada melhor do que retomar o que queríamos aos 20, sem grandes complicações.

Vestidas de amor de sobra

O que inspira seu dia a dia?
Como diz a música do Almir Sater: “É preciso amor para poder pulsar… É preciso paz para poder sorrir”.

Como e quando foi morar em Portugal?
Eu e meu marido morávamos na Flórida e, como tenho cidadania portuguesa, em maio de 2016 decidimos fazer uma experiência de morar em Portugal por 1 ano. Eu já participava do projeto lá e decidi lançar aqui. Ele tem sido um sucesso. Em paralelo nos sentimos tão acolhidos que resolvemos vender a nossa casa e nos mudamos de vez para Portugal.

Vestidas de amor de sobra

Como a pilotagem de avião entrou na sua vida?
Outro dia minha mãe me mostrou um desenho que fiz quando tinha uns 10 anos. Nesse desenho eu era piloto de um helicóptero e resgatava uma criança. Eu tenho um amigo no Rio que tem um pequeno avião e há 20 anos me levou para voar pela primeira vez, nunca tinha voado numa aeronave tão pequena, mas adorei e ia sempre que era convidada. Depois, casei com um piloto que é meu grande parceiro em tudo e ama aventuras como eu. Quando ele decidiu se aposentar, resolvemos realizar este sonho. Meu sonho é ser piloto voluntária, mas ainda não cheguei lá.

Uma frase…
Menos é mais.

 

 

A coragem de mudar a direção da própria vida e o ambiente ao redor começou como uma pequena muda de planta para Beatriz de Santiago. Regada com muita inspiração, a vontade da paisagista – até então advogada – foi crescendo até ser grande o suficiente para provocar uma reviravolta no caminho dela.

Foi numa visita ao parque inglês Kew Garden que ela teve um estalo. Largou o Direito e foi estudar a arte de dar novas formas aos ricos contornos da natureza. Agora termina um curso de Paisagismo Ecológico e tem sua própria empresa.

Hoje cultiva o sonho de dar asas ao Muda Rio, projeto que revitaliza praças e canteiros cariocas abandonados. Afinal, são mais de 650 mil árvores e 2.200 espaços verdes públicos que precisam de conservação na cidade. Apesar de estar vigente desde 2012, a iniciativa ainda tem muito a crescer, pois carece da contribuição.

Apaixonada pelo que faz, por pintura e pela rica paleta de cores da natureza, hoje ela também mantém o sonho de implementar hortas em escolas públicas.

Esperamos que Beatriz colha lindos frutos desses projetos!

Para começar, conta um pouco sobre sua trajetória.
Sempre fui apaixonada por natureza, o contato com a terra, de admirar as silhuetas das plantas, as cores e texturas do verde, o cheiro das flores. Sou formada em Direito e exerci por 7 anos a profissão de advogada. Em 2008 fui estudar em Londres. Já tinha lido sobre a vida de Burle Marx e quando entrei no Kew Garden, o parque inglês onde ele teve as suas maiores inspirações, não teve jeito, uma intuição me fez mudar a direção da minha vida. O verde pulsava e minha vontade era poder sair plantando por toda parte. Fiz vários cursos, workshops e estou finalizando um projeto de Paisagismo Ecológico.

Como o paisagismo entrou na sua vida?
Não foi fácil fazer essa migração de carreira, muitos não se conformavam que eu deixasse o Direito. O paisagismo entrou de forma linda através de sinais e muitas coincidências que me fizeram acreditar que daria certo. Comecei fazendo o curso sobre ervas medicinais no Jardim Botânico do Rio. Após 3 anos de muitos estudos e viagens técnicas, montei uma loja-conceito de paisagismo, a partir daí, não parei mais. Sou uma pessoa muito realizada e privilegiada de poder trabalhar com o que realmente amo. Sou apaixonada pelo paisagismo.

Quais aspectos você leva em consideração na hora de criar um projeto?
São vários aspectos que levo com consideração. Preciso realizar a visita técnica ao local, conversar com o cliente para entender a dinâmica familiar, se há disponibilidade de tempo para regar as plantas, quais os gosto, etc. Depois preciso analisar o entorno do local, se pega sol ou sombra, se é arejado, como será a irrigação e por aí vai.

Como, quando e por que decidiu criar o projeto Muda Rio?
Sou apaixonada pelo Rio de Janeiro, apesar de todos os problemas que estamos enfrentando, tenho alguns sonhos para realizar na nossa cidade. O clima é muito favorável. Temos a maior floresta urbana do mundo, que é a Floresta da Tijuca. Temos os parques e jardins assinados pelo maior paisagista de todos os tempos, Burle Marx. Infelizmente, ainda temos praças e canteiros abandonados por toda a cidade. Isso começou a me causar tristeza. Comecei a pensar que poderia incentivar e conscientizar pessoas e empresas a mudar a cara do Rio. Hoje, tento convencê-las a proporcionar o bem-estar não só para seus funcionários e clientes, mas também para tornar o Rio um lugar melhor.

Qual é a atuação do projeto hoje?
Infelizmente está longe do que idealizei, mas tenho algumas propostas em análise. Com a crise, as empresas passaram por muitas reestruturações financeiras e me parece que os projetos estão suspensos temporariamente.

Quais são os resultados que ele trouxe desde a sua criação? 
O Muda Rio me trouxe esperança de um dia ver as praças mais bem cuidadas, pessoas mais felizes e saudáveis. O projeto ainda não avançou como eu gostaria, mas recebo muitos e-mails de pessoas pedindo para revitalizar a praça/canteiro perto de suas casas. A revitalização é um processo, preciso dar entrada no pedido na Fundação Parques e Jardins. Depois da aprovação, é preciso reformar e fazer manutenção do jardins.

Como uma pessoa pode ajudar o Muda Rio?
Inicialmente tinha duas opções: por contrato empresarial ou crowdfunding, mas por algumas circunstâncias da época não consegui seguir essa 2ª opção. Devo voltar em breve a tentar o financiamento coletivo.

Quais são os critérios de escolha dos espaços a serem revitalizados?
Geralmente é no entorno da empresa, mas não é uma regra. Pode ser próximo a espaços culturais, esportivos, uma praça com grande visibilidade. As empresas podem ter o retorno de um marketing ecologicamente correto.

A partir do momento em que o canteiro ou praça é escolhida, quais são os próximos passos?
Depois do local escolhido, é necessário aprovar o projeto e orçamento com o cliente. Em seguida o projeto é submetido a análise a aprovação da prefeitura, através da Fundação Parques e Jardins.

Também queremos saber um pouco de você. Quais são suas paixões? O que te inspira?
Inspiração para mim está nas coisas mais simples da vida. É ver um pé de jabuticaba crescer e o beija-flor vir apreciar. É plantar uma palmeira e vê-la se desenvolver com o vento balançando as madeixas. É sentir o perfume autêntico do jasmim, da lavanda ali bem da sua varanda. E dessa forma a família poder praticar e compartilhar hábitos que preenchem a alma. Outro dia recebi a visita de um tucano na minha varanda e fiquei apenas admirando a liberdade e a riqueza da mãe natureza. Amo o que faço, ver os sonhos dos meus clientes realizados é uma felicidade. Pintar aos domingos também é uma das minhas inspirações.

Tem algum sonho para o futuro?
Meu sonho é que as pessoas não esqueçam que precisamos cuidar do verde para o mundo não ficar cinza. Que a cidade floresça desse momento nebuloso e possamos sentir o cheiro de terra molhada acalentando e tranquilizando nossos corações. Eu adoro plantar com crianças e tenho um sonho de implementar hortas em escolas públicas.

Conta um pouco da sua relação com a Maria Filó.
A minha história com a Maria Filó é antiga. Quando eu advogava, eu trabalhava perto do Shopping Vertical, do Centro do Rio. Eu vi a loja nascer lá e me vestia de Maria Filó para as minhas audiências. Depois que me tornei paisagista, fiquei mais apaixonada ainda com as mais lindas estampas florais que só a Maria Filó tem. A minha blusa jeans com flores é uma paixão. O charme e a personalidade das coleções são únicos.

Especial Outubro Rosa

Às vezes é um filme que traz uma mensagem do bem, em outras são iniciativas bacanas que nos ajudam a superar momentos difíceis. Quando eles surgem, nada como buscar informação, além de cuidar do corpo e da mente, afinal os dois são indissociáveis e trabalham juntos para nosso bem-estar.

Manter a positividade é como um remédio, defende a psico-oncologista Jéssica de Riba, responsável pelo Grupo Conviver, projeto de apoio psicológico da São Carlos Saúde Oncológica. Hoje conversamos com ela, que dá conselhos para enfrentar o câncer com otimismo e troca de experiências.

Confira a entrevista:

Qual é a importância do acompanhamento psicológico durante o tratamento?
Tão importante quanto a busca por novos medicamentos e tecnologias de enfrentamento ao câncer é encontrar maneiras de ajudar o paciente a lidar com o diagnóstico. Ainda que parte dos tumores malignos tenham bons prognósticos, o câncer tem um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, por isso a importância do acompanhamento psicológico desde o diagnóstico. Em alguns momentos, o simples fato de oferecer à pessoa um espaço onde ela possa falar de seus sentimentos e expectativas frente ao câncer pode fazer com que novos significados sejam dados à vida. O papel do psicólogo consiste em trabalhar suas vivências e possibilitar ao paciente a compreensão do seu processo de vida e de adoecimento, além do enfrentamento do diagnóstico, do prognóstico e da construção de um espaço para resgatar seu valor enquanto ser humano. Esse é o trabalho que fazemos com os pacientes do Grupo Conviver na São Carlos.

Como lidar com o diagnóstico? É comum a oscilação entre momentos de negação e otimismo?
Não existe uma fórmula mágica para lidar com o diagnóstico, a oscilação de humor é comum e, em sua maioria, as pessoas precisam de algum tempo para se ajustar ao fato de que estão com câncer. Precisam de tempo para pensar no que é mais importante em suas vidas e aceitar o apoio de seus familiares e amigos. Para muitos, este é um momento emocionalmente difícil e por isso sentimentos como raiva, medo, choque e descrença podem ser comuns.

A feminilidade de muitas mulheres fica afetada durante e após o tratamento. Quais são as dicas que você dá para elas nesse momento?
Se enxergar em uma nova imagem corporal, aprender e aceitar seu corpo durante e após o tratamento do câncer de mama é uma jornada pessoal e diferente para cada mulher. A questão da feminilidade pode ser bastante auxiliada com a busca de informações e também com a busca de grupos de apoio mútuo, que enriquecem as trocas de experiências e vivências.
Procurar informação e entender que sexualidade vai muito além do próprio ato sexual é importante, assim como o apoio do (a) companheiro (a) e compreensão de que cada um tem seu próprio tempo.

Quais outras dicas você dá para quem enfrenta o tratamento?
A experiência do câncer é única para cada um dos pacientes. O momento mais difícil costuma ser o pós-diagnóstico, assim como durante as diferentes etapas do tratamento – cirurgia, quimioterapia, radioterapia e possíveis recaídas. Pesquisas realizadas nos últimos anos concluíram que pacientes otimistas, em geral, têm resultados mais positivos no tratamento oncológico. O emocional gera uma alteração negativa de hormônios que interfere até no tratamento. Pacientes emocionalmente bem enfrentam a doença de forma mais tranquila.

1. Não tenha medo da informação. É importante manter-se informado sobre o andamento do seu tratamento. Isso ajuda a compreender como será o caminho para enfrentar o câncer.

2. Busque apoio nas pessoas que você ama.

3. Procure apoio também em pessoas que passam por situações parecidas.

4. Esqueça as estatísticas, resista à tentação do “Dr. Google” e peça informações ao seu médico, ele melhor que ninguém conhece seu caso.

5. Não pare sua vida por causa do câncer, manter a normalidade é fundamental para a saúde mental.

6. Muitas pesquisas também apontam que a meditação mindfulness, por exemplo, ajuda no tratamento ao reduzir os hormônios do estresse e aumentar a sensação de bem-estar, além de ajudar a regular o sistema imunológico. Fé também traz benefícios similares.

Você indica que as pacientes continuem a rotina durante o tratamento? Ou é importante dar uma pausa?
Manter a normalidade é importante para a saúde mental quando nos deparamos com um diagnóstico de câncer. Ocupar a cabeça com problemas que vão além do consultório médico faz toda a diferença no equilíbrio emocional.

Quais dicas você dá para familiares e amigos de quem enfrenta o câncer de mama?
Sabemos que o diagnostico de câncer abrange não só o paciente, mexe com toda estrutura social e familiar. Normalmente, orientamos que os familiares:
– Mantenham-se informados sobre o que está acontecendo;
– Cuidem também da própria saúde, é muito comum que no cuidando do outro o familiar se esqueça dele;
– Cuidem dos seus sentimentos e, se necessário, procure ajuda profissional;
– Consigam dar carinho e entendam que a perspectiva do paciente foi modificada (saúde/doença), assim como o timing;
– Ofereça ajuda, saiba ouvir e principalmente se permita chorar e permita o outro chorar. É importante saber que altos e baixos emocionais são comuns e que tanto o familiar quanto o paciente podem ter vontade e devem chorar.