A musa dos novos tempos

Roberta Sá

Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Com uma voz potente e ao mesmo tempo doce, Roberta Sá se permite transitar com desenvoltura entre várias vertentes da música brasileira a cada novo projeto. Seu mais recente álbum, Delírio, traz um perfume feminino à cadência do samba, gênero para o qual a cantora traz um fôlego renovado, com elegância e emoção.

Arrastando a sandália – de salto – Roberta Sá invade com charme esse território tão dominado pelos homens, cativando cada vez mais seu lugar na MPB. E suas canções refletem isso, uma mulher que corre atrás, dona do seu destino, que abraça suas imperfeições e busca o equilíbrio.

Delírio aposta em parcerias afinadas que traduzem essa força: em Me Erra, composta por Adriana Calcanhoto, cansa-se de esperar um amor, toma as rédeas e torna-se rainha da própria bateria; em Amanhã é Sábado, escrita por Martinho da Vila, é uma mulher independente, trabalhadora, que comemora a chegada do final de semana para descansar e ganhar um dengo gostoso. No disco, Roberta também faz um novo e delicioso dueto com Chico Buarque.

Hoje, a potiguar se prepara para novos projetos, lançando-se no mundo sempre com muita paixão pelos seus maiores delírios: o palco e a criação. Por aqui, mal podemos esperar!

Roberta Sá

Fotos: Site Roberta Sá/divulgação

Você disse que um dia reparou que seus álbuns preferidos eram “imperfeitos” e por isso incorporou a vertente de pouca edição ao “Delírio”. Na música “Um passo à frente”, você diz canta “minha imperfeição é a voz da vez”. Como você leva isso para o seu dia a dia? Consegue abraçar suas imperfeições com naturalidade?
Acho que a maturidade traz isso. Aos 20 eu não conseguia, aos 36 não só aceito, mas também abraço como parte da minha personalidade. Rir de si, não se levar tão a sério foi importante nesse processo. A imperfeição é uma conquista.

Qual é a sua imperfeição mais charmosa?
Eu sou muito gulosa. Amo comer e não existe a possibilidade de eu abrir mão desse prazer por estética. Claro que cuido da saúde, mas nos dias de hoje, acho um charme uma mulher que come sem culpa.

E qual é o seu maior delírio?
O palco, a criação. Meu trabalho é minha paixão. Tenho essa sorte imensa e sou cada dia mais grata e reconhecida.

Roberta Sá

Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Na música “Amanhã é sábado”, escrita pelo Martinho para você, a mulher toma as rédeas e deixa de ter um lugar passivo. O que interpretar essa canção representa para você?
Tenho observado uma mudança de comportamento e posicionamento nas mulheres que me cercam. Elas são independentes, donas dos seus destinos, mas não abrem mão de um colinho. A música fala disso e eu me identifico cem por cento.

Como você enxerga o lugar da potência feminina no samba? Você vê uma mudança?
Antigamente as mulheres eram as musas, as que faziam o feijão para a roda. Depois viraram as divas, as que descobriam os compositores. Hoje elas contam suas próprias histórias, falam dos seus desejos, medos e questões nas suas composições. Acho que mulher cada vez mais conquista novos espaços sem perder o que já era seu.

Falando em mulher, vimos que uma das suas maiores influências é a Carmen Miranda. O que você mais admira nela?
Tudo! A Carmen foi uma mulher que fez questão de cantar em português quando em Hollywood achavam que no Brasil se falava espanhol. Uma atitude política, consciente, que levou o samba e o país para o mundo inteiro com muito charme, carisma e originalidade. Criou um personagem que até hoje é copiado e lembrado. Um grande mulher à frente do seu tempo.

Roberta Sá

Foto: Daryan Dornelles

“A tristeza é senhora”? Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza?
Sempre! Tenho a sensação que as pessoas hoje têm a ilusão de que se pode ser feliz o tempo inteiro. Isso não é felicidade, é euforia. Ser feliz, para mim, envolve reflexão, recolhimento e um pouco de tristeza. 

O que mais é preciso? O que te inspira a cantar? O amor é senhor?
Acho que a simplicidade da vida. Eu vejo graça em deitar no sofá e ver um filme de cuca fresca. Para mim o amor está no cotidiano. E buscar um dia a dia mais prazeroso é o que me faz cantar melhor.

O que o “Delírio” trouxe de mais enriquecedor para sua carreira?
Encontros, sempre! Com Martinho, com os músicos que estão comigo nessa jornada.

Qual é a maior diferença entre a Roberta como cantora no início da carreira e a Roberta de hoje?
Eu era uma menina sonhadora, hoje sou uma mulher que corre atrás, realiza seus sonhos e administra suas frustrações.

Qual é a sua relação com a moda?
Gosto muito. Uma roupa bonita é capaz de mudar seu astral, elevar sua autoestima. Mas tenho tentado consumir com consciência. Gosto de investir em qualidade.

Qual foi a última música que você escutou antes dessa entrevista?
Sina de Cigarra, do Jackson do Pandeiro.

Para terminar, queremos saber seus próximos planos. Tem algum projeto à vista?
Tenho muitos. Em agosto vou para a Suíça cantar no Auvenier Jazz Festival, depois devo tirar férias para entrar em estúdio ainda este ano.

Sensibilidade estética em prol da criatividade

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: Leo Martins

Quando você pensa em arquitetura e décor, vem à sua cabeça aquelas reformas que botam tudo abaixo e substituem os objetos antigos por novos? Há 4 anos, a criativa Marina Ribas criou dois conceitos inovadores e sustentáveis que subvertem esse lugar comum: a Arquitetura Emocional e o Non D’ecor, que reinventam os espaços de maneira afetiva, recuperando o valor de peças abandonadas.

Aqui na Maria Filó, Marina usou essas vertentes criativas para desenvolver um lindo projeto que humanizou nosso escritório. A partir de objetos aparentemente sem significado, ela trouxe uma nova atmosfera ao espaço, que respeita nossa história e aguça nossas memórias emocionais.

Essa sensibilidade estética vai além. “Acredito que a criatividade e a funcionalidade das coisas podem se aterrissar em vários mundos”, conta ela, que hoje também abraça projetos de cenografia, Visual Merchandising, direção de arte, identidade visual, branding de estilo de vida (quando uma pessoa de apresenta como marca) e ainda dá aula no IED (Instituto Europeo di Design). Ufa!

Quer dizer, não para por aí. Marina tem cada vez mais flertado com o universo das artes plásticas. Ao lado do Fred Gelli, seu marido, acabou de participar do processo lúdico de co-criação da marca do Parquinho Lage, nova escola de arte para crianças que homenageia o artista Palatnik e deve inaugurar mês que vem.

Que ela continue nos encantando com sua sensibilidade, originalidade e criatividade!

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: arquivo pessoal

Para começar, queremos um pouco saber sobre você. Conta um pouco sobre sua trajetória profissional.
Minha formação foi em Design, com habilitação em Design de Produtos e Comunicação Visual. Durante a faculdade, eu trabalhava no escritório de arquitetura do Hélio Pellegrino, que usava material de demolição e revia a função dos objetos, hoje prática bem comum no universo da arquitetura. Na época era inovador, então foi uma experiência maravilhosa, aprendi muito. Depois montei um ateliê com uma amiga, fizemos vários objetos de acrílico, como luminárias e painéis, para vender. A criação sempre fez parte do meu universo. Depois me tornei freelancer, segui meu caminho sozinha no Design de Produtos. Foi então que me juntei com uma amiga, a Lola Lustosa, em 2006, e criamos uma marca de roupas fitness superfashion. Queríamos tirar o fitness desse lugar esportivo, para sair de casa toda linda sem precisar estar de legging. Depois dessa fase inicial, me tornei coordenadora de VM, juntei os ambientes da arquitetura, do design e da moda num lugar só. Estava em crise, eu queria ser designer gráfica, trabalhar com decoração e moda. Descobri o VM como oportunidade de juntar esses 3 universos. Trabalhei em outras marcas, paralelo a isso tinha meu projeto de artes plásticas. Depois parti de novo para a carreira solo.

Como você define o conceito de Arquitetura Emocional?
É um conceito que ressignifica os espaços, traz a capacidade de reinventar um ambiente com o que tem nele, recupera o valor de peças que antes estavam abandonadas. O trabalho de arquitetura emocional fala muito desse reaproveitamento, desse olhar.

E o de Non D’ecor?
Não acredito num trabalho de decoração que não leve em conta a verdade de quem mora no lugar. Gosto muito de pensar num espaço com a verdade e as memórias afetivas daquela pessoa impressas nele. Objetos importantes que construíram uma base para ela se desenvolver. Às vezes um objeto parece não ter significado, mas conversando com o morador, você descobre uma história por trás. Às vezes, decoradores ignoram a vida da pessoa. O conceito do non d’ecor não acredita numa decoração fria, mas humana. A capacidade de olhar para o lugar e ver as potências que ele tem, entender como as pessoas desfrutam do espaço, depois o que tem valor para ser mantido e o que pode ser descartado.

Como foi o processo de aplicar a Arquitetura Emocional aqui na Filó?
No trabalho que fiz para a Maria Filó, olhei para o acervo do VM, da equipe que tinha o material de vitrine. Em vez de fazer um novo projeto, reformular a empresa, meu desafio foi de captação e imersão de valor humano a partir do recurso interno. Eu fiquei durante 3 meses trabalhando dentro do escritório, entrevistando as pessoas, tive uma visão muito global. Fiz uma catalogação do que eu achava ser interessante de reaproveitar e como aquelas peças abandonadas poderiam ganhar outro valor. Pegamos sobra de tecido do estoque e desenvolvemos as luminárias junto às costureiras, resgatamos peças e usamos no décor das paredes. Foi um trabalho de resgate, reorganizamos o espaço, revestimos as peças, reformamos o mobiliário com material interno.

O design é sua maior paixão?
A minha paixão é a existência. Minha verdadeira paixão é todo esse processo criativo de sensibilidade estética. Por isso ficava em crise quando era mais nova e não tinha tanta experiência. Acredito que a criatividade e a funcionalidade das coisas podem se aterrissar em vários mundos. Tanto do Design de Interiores quanto no Design Gráfico. Abraço muitas frentes. Sou uma figura criativa e sensível. Pensar um espaço físico demanda uma energia criativa igual a eu fazer um trabalho de arte ou design. O que muda são a materialização de trabalho, que usam técnicas diferentes, e relacionamentos profissionais que criamos, eles trazem muito aprendizado.

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: arquivo pessoal

Quais são suas principais referências estéticas e criativas?
Gosto muito do período neoconcreto, do modernismo. A arte é minha maior fonte de inspiração. Cada movimento artístico teve um valor extremamente importante. Claro que tem alguns artistas que amo. Ontem, ao encontrar o Palatnik, eu dei uma “choradinha” de emoção. Inevitável estar diante de uma figura tão importante e não se emocionar. E viajar, a vivência em outros lugares, ver novas arquiteturas, formas de se relacionar, outros espaços, a luz do sol… Tudo isso também me inspira muito.

Dá para perceber que sua relação com a moda é forte. O que ela representa para você?
Eu sou uma figura romântica nos conceitos. O romance com a moda está também nesse lugar da arte, de comportamento. A primeira casa, primeiro invólucro do ser humano é a roupa que ele veste. Depois do ambiente, depois o espaço arquitetônico, depois a cidade, o país… Numa escada de contato com o ser humano, acredito que a moda tenha esse lugar de abrigar o ser humano e oferecer a ele comportamentos estéticos e sociais de posicionamento. Ela é mais uma forma de expressão.

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: arquivo pessoal

Olhando seu Instagram, vimos que você é rodeada por objetos que remetem à natureza.
Moro no meio da floresta, um apartamento que parece uma casa. Eu acordo e vejo três tipos de macaco. Um com uma mão amarela, um rostinho branco e uma cauda gigantesca superfashion. Ele pega o rabinho e bota em volta do pescoço como se fosse uma echarpe. (risos). Tem o macaco prego, inteligentíssimo, besouros, borboletas… Eu coleciono numa cristaleira insetos exóticos que encontro mortos na minha casa. Uns 50. Fui criada em meio à natureza, é vital, é saúde. Minha casa tem uma quantidade plantas incomum para um apartamento. A natureza humaniza o espaço, traz a gente para um lugar mais ancestral.

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Fotos: André Nazareth

Quais são os 5 objetos mais afetivos do décor da sua casa?
Minhas instalações, as camas que eu e meu marido usamos no lugar dos sofás, a coleção de cadeiras de design, os objetos que vieram de herança da minha vó e os objetos da cozinha que eram da mãe do meu marido, como o caderninho de anotação e as panelas.

Vimos também que seu marido tem um belo piano. Qual música que ele toca mais te emociona?
Eu e me marido compusemos uma música juntos para o convite do nosso casamento. Nós dois nos emocionamos. O convite é um vídeo que com nossos nomes aparecendo na tinta dourada, botamos a música no vídeo e mandamos para as pessoas. Era muito diferente. Meu marido também é designer, nossa casa é pura natureza e arte, ela respeita nossa natureza criativa. Chamamos de “Casa da Floresta”.

Quais características da sua personalidade mais te ajudam na sua profissão?
Sensibilidade, criatividade, olhar humanista, flexibilidade, intuição e amorosidade.

 

Culinária a serviço da biodiversidade

Bel Coelho | Gastronomia sustentável

Fotos: Revista Receber em Casa | Antonio Rodrigues

Às vezes precisamos olhar ao redor para ver além. É com essa receita que Bel Coelho vem mostrando que a culinária pode ser uma arte transformadora. A partir de uma infinita cartela de ingredientes nativos, técnicas culinárias apuradas e muita criatividade, a chef valoriza a cultura local, preserva a biodiversidade e proporciona experiências gastronômicas que percorrem cada canto do país.

À frente do restaurante Clandestino, que abre durante uma semana por mês com um requintado menu degustação atualizado a cada edição, ela subverte o modelo tradicional e desafia-se a criar pratos temáticos interessantes. Com uma proposta mais acessível, também abre mensalmente o Canto da Bel, que aproxima o público em geral da sua inovadora comida-arte.

Apresentadora do programa “Receitas de viagem” e mãe de dois pequenos, Bel abre portas regionais, derruba muros, aproxima culturas locais e renova paladares. Aqui, ela conta mais sobre sua paixão.

Fotos: Rubens Kato | Lucas Terribili

Como e quando surgiu seu interesse pela culinária?
Foi na infância, aos 7, 8 anos, em casa. Eu tinha uma relação bem estreita com a cozinheira lá de casa. Ficava bastante tempo na cozinha. Eu também era bem próxima da madrasta do meu pai, que era portuguesa e cozinhava bastante em casa. Mas nessa época eu ainda não pensava que isso poderia se tornar uma profissão.

Conta um pouco da sua trajetória para a gente. Como foi o processo de se tornar chef?
Com 16 anos, eu assinava a Gula, que era a revista de culinária da época. Foi nela que eu vi uma entrevista de um cozinheiro de São José dos Campos que fez uma faculdade fora e estava no Brasil trabalhando como cozinheiro profissional. Eu nunca havia vislumbrado me tornar chef. Não ligava meu hobby a uma possível profissão. Foi aí que me deu um clique e eu falei que queria fazer isso.

Que bacana. Tomara que essa entrevista inspire futuros chefs.
Tomara (risos).

A proposta do Clandestino é bastante diferente e única. Por que você decidiu proporcionar aos clientes uma experiência mais lenta e palatável?
O Clandestino funciona uma semana por mês, de segunda a sábado. Antes dele, eu fazia jantares na minha casa, para amigos, com o que tinha de mais interessante e novo na culinária. As pessoas vinham e só pagavam o valor de custo. Era um momento de criação, de teste, mais pessoal, de confraternização. Eu transferi um pouco desse conceito para o Dui (antigo restaurante de Bel). Depois que ele fechou, levei para a cozinha que tenho agora. É um menu degustação que eu não informo antes, as pessoas fazem a reserva e pagam com antecedência. Não tem cardápio, é um menu que dura 2h30. São em torno de 15 pratos.

Como tem sido a aceitação dos clientes diante dessa proposta?
Tem sido maravilhoso. O restaurante está sempre cheio, é gratificante. Nunca imaginava que um menu degustação fosse sempre estar cheio. Tanto é que no início eu abria uma vez por semana só. É uma experiência diferente de um restaurante normal. É um lugar pequeno, parece minha casa. São meus móveis, meus livros. A ideia é a pessoa se sentir em casa, com uma proposta moderna, com o que eu tenho de mais novo criado com minhas pesquisas atuais.

Impossível citar Bel Coelho sem falar de amor pela comida brasileira. É uma paixão antiga? Como e quando ela nasceu e aflorou?
É uma paixão antiga, mas minha comida foi ficando cada vez mais brasileira. Nossa formação como cozinheiros é muito francesa. Pelos locais onde eu passei, essas técnicas ainda prevalecem. Mas trabalhei com alguns chefs que valorizaram a comida brasileira, como o Laurent Suaudeau e o Alex Atala. Eu ainda não tinha feito uma viagem pelo Brasil inteiro como eu gostaria, para conhecer os ingredientes, para entender as técnicas indígenas. Há 15 anos eu trabalho com produtos brasileiros, mas criei um estilo mais brasileiro depois da minha viagem para Berlim, em 2005, experiência fundamental para a minha carreira. Viajei com o Paulo Martins, um chef que me mostrou todos os produtos da Amazônia. O outro “turning point”. Foi em 2012 quando viajei pelo Brasil inteiro para gravar o programa. Abriu-se um leque de possibilidades e inspirações.

Foto: Antonio Rodrigues

Foto: Antonio Rodrigues

Como é o processo de criar novos pratos temáticos?
Um prato temático pode ser inspirado num regional. Normalmente parto dos ingredientes. Uma moqueca, por exemplo, leva leite de coco, gengibre, tomate, pimentão. Então eu aplico técnicas diferentes das originais. Mas na verdade já criei muitos menus temáticos sem prévia intenção de fazê-los. É o caso do menu do Candomblé, dos Orixás e dos Biomas Brasileiros. Agora vou ter um inspirado na herança portuguesa. Eles vão contando um pouco das minhas pesquisas. O dos Orixás eu criei conversando com minha irmã, que é do Candomblé. Ela me contou que cada orixá comia uma coisa diferente. Achei muito interessante, é uma religião muito importante na nossa cultura. Não só na culinária, mas na dança, na música, em tudo. A gente se veste de branco no Réveillon e jogamos flores no mar por causa dela. A farofa, o acarajé, o caruru vieram por causa do Candomblé. Tem os preconceitos que a elite acabou imprimindo desde os primórdios, quando os escravos vieram para cá. Quero mostrar essa importância dessa cultura. O menu dos Biomas é relacionado à biodiversidade, cada prato se inspira em um bioma brasileiro. Faço uma homenagem à Mata Atlântica, outra ao Sertão, ao Cerrado, à Amazônia, aos Pampas, e ao Pantanal. Em cada prato desse uso pelo menos dois ingredientes nativos daquele bioma. São coisas que pessoas nunca comeram. Jatobá, tarumã, frutas que nunca comeram. A ideia é trazer luz a isso, fazer as pessoas se interessarem e entenderem o Brasil como um todo

Você incorpora novos sabores e experiências à sua comida. Para você, o que significa trazer à culinária alimentos pouco conhecidos para algumas pessoas?
É interessante do ponto de vista do paladar, da criação de novos pratos. Mas acima de tudo eu quero que as pessoas consumam mais produtos nativos. Por uma questão socioambiental de manutenção das matas. Culturalmente é importante e para a biodiversidade é fundamental. A gente foi transformando nossas terras em monocultura, com poucos ingredientes, alimentos que muitas vezes não são nem nativos. Isso em demasia, como é o caso, acaba deixando a mata cada vez mais pobre. É muito interessante que a gente volte a consumir frutas como grumixama e pitanga, sementes, plantas comestíveis como taioba e ora-pro-nóbis. Algumas estão entrando em extinção porque as pessoas não as consomem mais. Em algum momento vamos precisar delas de volta para reconstituir as matas. Tem um motivo mais importante que fazer um menu.

Cozinha Bel Coelho

Foto: Lucas Terribili

Conta um pouco sobre a proposta mais acessível do Canto da Bel.
A ideia era acessar mais gente. Faço uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. O preço gira em torno de R$ 15 a R$ 30. É aberto para a rua. Às vezes busco inspiração no menu do Clandestino, já reinterpretei o dos Orixás e o dos Biomas, mas a ideia é que pessoa se alimente com 2 ou 3 pratos no máximo.

Fazer comida é um ato transformador. De que forma um chef pode contribuir para um mundo melhor?
Eu acho que é fazendo as pessoas consumirem pratos que elas não estão acostumadas e que são importantes para a biodiversidade, ela é fundamental para a manutenção das matas.

Quais são seus pratos preferidos?
Atualmente é um prato do menu atual, um arroz de lagostins com manduirana e farofa de baru. Tem uma sobremesa que eu gosto bastante com as frutas da estação: caqui, abacate, maracujá, cambuci e castanha-do-pará.

Bel Coelho e filhos

Foto: Henrique Peron

Quais são seus 5 ingredientes indispensáveis na hora de cozinhar?
Que difícil! Cebola, azeite, alho, gengibre e limão.

Para terminar, queremos saber mais sobre você. O que gosta de fazer nas horas vagas?
Não tenho hora vaga ultimamente (risos), mas gosto muito de ler, de cinema, música, viajar, praia, exercício físico. Adorava fazer ioga. Agora todo meu tempo livre é com meus filhos.

Como tem sido conciliar os seus projetos culinários com a criação dos seus 2 pequenos?
É caótico, mas tem sido muito prazeroso. O Francisco já tem 3 anos, tenho o iniciado nesse mundo da alimentação. Incluo na cozinha e em programas como ir à feira e à peixaria. Um dia de cada vez. Trabalho bastante no resto do mês quando o Clandestino não está aberto. Faço eventos corporativos, privados, na casa de clientes. Também estou tocando outros projetos, como livro e audiovisual. A ideia era ter mais tempo com meus filhos, mas é uma vida caótica.

 

Perfume de mulher

Letícia

It’s a long way, repleta de fases e histórias. Letícia Gicovate que o diga, sempre se reinventando e flertando com novos universos. Formada em redação publicitária e em moda, hoje ela mora na Inglaterra e está à frente da Nin, revista de arte erótica que já conta dos duas belas edições. Toda vez que volta para o Rio, ajuda a avó a vender a colônia de alfazema da família, a L’eau de Gly, criada nos anos 70 pela matriarca.

Antes disso, ela já foi figurinista, participou de campanhas internacionais, filmou em Machu Pichu e trabalhou até num filme indiano. Depois, passou um ano sabático em Berlim e, quando voltou ao Brasil, trabalhou como redatora de moda até sua filha Catarina nascer.

Indefinível, muitas em uma, mutante, apaixonada por arte e exploradora de toda forma de potência feminina – entre as linhas da moda, os contornos corporais ou as sensações intangíveis de um aroma repleto de afeto – Letícia mostra coragem de inovar. Sempre, claro, trazendo criatividade e inspiração para os mínimos detalhes.

Nin 2

Conta um pouco da sua relação com a moda e a estética.
Cresci rodeada de beleza num ambiente familiar muito inspirador, ao mesmo tempo minha madrinha era estilista então eu brincava entre tecidos e croquis. Muito novinha eu já desenhava vestidos e tinha a noção exata do que queria vestir, ao mesmo tempo lia muito e escrevia sem parar. Acabei estudando publicidade e moda por que não conseguia escolher, hoje consigo conciliar bem as duas paixões.

Por que decidiu dar um tempo na carreira de figurinista? Cogita voltar?
Em 8 anos de carreira vivi muitas experiência inesquecíveis, fiz muitos trabalhos dos quais me orgulho e sinto que foi um ciclo maravilhoso que se fechou redondinho. Hoje em dia prefiro pensar a moda, pesquisar e analisar tendências, estudar os rumos do mercado e depois compartilhar o que aprendi!

Letícia figurino

Você tem uma relação com o feminino muito forte. A admiração por sua avó, a revista feita para nós. Ao mesmo tempo, desconstrói padrões. Como você enxerga o feminino?
Acho que esse fascínio vem de não poder definir, então gosto de mergulhar nos arquétipos, ou pelo menos nos que me cercam, para entender melhor, comunicar e homenagear toda a potência feminina, tudo o que é ser mulher.

O que você aprendeu de mais valioso no seu processo de amadurecimento como mulher?
Que não termina nunca, estou sempre só começando, sempre só aprendendo!

O que você, enquanto mulher, ensina para sua filha para que ela futuramente nos represente da melhor forma possível?
Ensino sobre feminismo na prática, com a dinâmica que ela vê dentro de casa, com as conversas que ela assiste, os livros que leio para ela, a forma como eu me relaciono com as pessoas e com o mundo. Dou a ela segurança e liberdade para que ela se expresse e se mova num mundo mais igual, para que ela seja um agente ativo nessa mudança, fazendo a igualdade acontecer.

Como é criar sua filha num país com uma cultura diferente da sua?
A Catarina estuda numa escola inglesa pública e convive com crianças das mais diversas culturas, o que pra mim não tem preço. Desde cedo ela já está aprendendo o tamanho do mundo e a beleza da diversidade, pode chegar em casa me contando sobre o Ramadan, o festival Diwali ou alguma supertradição inglesa. Tudo isso com um sotaquinho “british” delicioso!

Qual é o papel da arte na sua vida?
É um escape, seja através dos livros, da música ou uma exposição, é o momento que me conecto com alguma coisa que mora mais fundo e que na maioria do tempo não conseguimos ver. É quando a alma vem de encontro à pele!

Quando você sente o cheirinho da L’eau de Gly, o que vem na sua cabeça? O que ele traduz?
O L’eau de Gly é uma fórmula secreta da minha avó e só ela que faz, numa produção superartesanal, até hoje. Sentir esse perfume para mim é sempre uma volta para casa, sinto o cheiro do lençol de linho, da grama molhada do quintal, do pé de alfazema em frente à varanda do quarto. Ao mesmo tempo remete ao glamour da minha avó, a tradição e a elegância que não se esgotam com o tempo. É cheirinho de conforto e delicadeza.

Avó e Nin

O que você mais admira na sua avó?
Minha avó foi meu primeiro ícone fashion, passei a infância metida dentro do seu closet, montando meus primeiros figurinos. Na verdade, faço isso até hoje e ainda encontro preciosidades. Temos uma troca intensa, ela me ensina sobre flores, sobre a beleza e o tempo, e sempre tento assimilar um pouco de sua clareza e de sua altivez. Tenho sorte de ter uma família com muitas mulheres, fortes, belas e inteligentes, sou muito inspirada por todas elas.

Por que e como você decidiu criar a Nin?
Em 2009 passei um período sabático em Berlim e por lá conheci algumas edições independentes que me deram um estalo. Uma revista era a expressão completa que eu queria, uma forma de combinar palavras e imagens de maneira atemporal e relevante. Mas precisei de 5 anos entre pesquisas e devaneios até encontrar minha sócia Alice Galeffi e juntas darmos forma ao conceito da Nin.

Nin

Conta um pouco sobre o “mote” da revista, o “Naked for a reason”.
A Nin é uma revista de arte erótica com curadoria feminina, mas criada para qualquer pessoa que queira pensar o corpo, a sexualidade e o sexo. É uma coleção de imagens, literatura, textos filosóficos e até ensaios acadêmicos que expressam as possibilidades do erotismo. O “Naked For no Reason” vem dessa vontade de naturalizar o tema, de tirar da sombra tudo que se relaciona com a nudez do corpo e os desejos da alma (e vice-versa!)

E hoje, como é a sua rotina? O que tem feito?
Tenho descoberto prazeres cotidianos, aqui aprendi a cozinhar e a cuidar do jardim, amo plantar coisinhas e depois vê-las crescer, florir. Também dou palestras e organizo workshops sobre a Nin, preparo a próxima edição da revista, produzo conteúdo e estudo Creative Writing. Ando ensaiando um livro, quem sabe?

Referências Letícia

Vamos à brincadeira. Top 5 bandas/cantores que você mais tem escutado ultimamente.
Não sou muito ligada a novidades, posso passar a vida toda ouvindo Bob Dylan, Nina Simone, Billie Holiday, Caetano Veloso e Cat Power.

Top 5 artistas plásticos/pintores que você ama.
Cy Twombly, Pollock, Louise Bourgeois, Nan Goldin e Julia Debasse.

Top 5 filmes inesquecíveis.
A Noite, A Grande Beleza, Asas do Desejo, Aquarius e Mary Poppins.

Top 5 escritores/livros.
Virgínia Woolf, J.P. Sartre, Clarice Lispector, Françoise Sagan e Chimamanda Ngozi Adichie.

Arte (de)coração pulsante

Ana Strupmf

Foto: Alessandro Guimarães

As cores e formas de Ana Strumpf saltam e pulsam aos olhos. É nessa batida pop, divertida e repleta de amor que a multicolorida e multifacetada artista deixa sua marca em tudo que faz. A criativa renova o fôlego e preenche espaços com um olhar singular, levando sua arte híbrida para ilustrações, projetos de décor, móveis e para emblemáticas capas de revista.

Não para por aí. Sem fronteiras, seus traços também invadem produtos criados a partir de parcerias com marcas mil. Aqui na Filó, ela já assinou uma linda bolsa para a coleção Instantes Sonhados. O caráter múltiplo se estende à vida pessoal: mãe de gêmeos, Ana é dona de casa e vive na ponte aérea entre SP e NY. Para driblar a correria, a artista recorre à ioga e tem tentando incorporar a meditação na rotina.

Falando em equilíbrio, a ilustradora não resiste a um pretinho básico. “Trabalho com tanta cor que preciso equilibrar. Amo preto, jeans, batom vermelho, listrado, clássicos, pérolas”, revela ela, que é formada em moda. “Minhas paixões são moda, design e arte”.

As nossas também, Ana!

Ana Strumpf

Fotos: acervo pessoal

Confira a entrevista:

Conta para a gente como tudo começou, como a ilustração entrou na sua vida. E o restante dos projetos?
Eu sempre gostei der desenhar, sempre fez parte da minha vida. Desde criança eu dizia que queria ser pintora. Estudei moda e meu trabalho de conclusão de curso foi criar uma loja chamada Garimpo, que usava sobra de tecido da loja de decoração dos meus pais. Tinha muita sobra de tecido que eu reaproveitava. A loja durou 6 anos, foi de 2003 a 2009. Acabou que meu marido passou para uma bolsa de estudo em NY e eu fui com ele. Foi então que fechei a loja. Comecei a desenvolver os projetos de decoração, lado da minha carreira que perdura até hoje. Junto disso também comecei a desenhar de maneira bem orgânica. Comecei a “rabiscar” em capa de revista. Foi bem na época do início do Instagram, postava e todo mundo gostava, repostava. Meu trabalho começou a viralizar em blogs também. Por conta das capas de revista, algumas marcas começaram a me pedir trabalho. Nem eu acredito que eu vivo das minhas criações. Minhas paixões são moda, arte e design, sempre gostei desse universo.

Ana Strumpf 2

Fotos: acervo pessoal

O que tem feito hoje em dia? Quais são seus projetos atuais?
Estou sempre com pé na moda, no design de interiores, decoro minhas capas. Já fui produtora de moda, de revistas, fui vendedora, já fiz curso de desenho. Nunca perdi essa ligação com a moda. Cada hora estou envolvida em um projeto. Também faço produto, gosto de juntar tudo. Produto, cenografia, ilustração. Agora estou em SP, mas sempre volto para NY, me identifico muito com a cidade, é minha preferida. Estou sempre envolvida com marcas internacionais, agora vou fazer parceria com de decoração e de beleza. Tem projeto novo vindo por aí.

Design sempre foi uma paixão? Quais são suas outras paixões?
Além da minha família e amigos, eu amo arte, música, cinema, todas as artes, comer. Passar o fim de semana com minha família, ver seriado. Agora estou vendo “Girls”, “Love” e “Big Little Lies”.

Ana Strumpf

Foto: acervo pessoal

O que te inspira a criar?
Desde andar na rua, em qualquer lugar, ver as pessoas, vitrines, museus, arte. Estou buscando referências sempre. Vejo coisas legais no Instagram, na internet. Meus filhos gêmeos de 3 anos e meio, o Max e o Noah, me inspiram demais. Estou mais solta nesse mundo lúdico das crianças. É uma imaginação tão rica, o mundo infantil me inspira.

Quais são suas referências criativas da ilustração, design, cinema, arte?
Matisse, Keith Haring, Jonas Woods, Brian Calvin. Meu marido é cineasta, adoro cinema. Amei “Moonlight”, uma história belíssima de amor, muito sensível. Adoro a Iris Apfel e todas as senhoras maravilhosas e descoladas do site Advanced Style.

Seu estilo tem a ver com suas criações?
Meu trabalho é supercolorido, mas estou sempre de preto. Já fui adepta ao brechó e usei muita cor e estampa. Hoje sou bem mais básica e prática. Trabalho com tanta cor que preciso equilibrar. Amo preto, jeans, batom vermelho, listrado, clássicos, pérolas.

Sua assinatura é inconfundível, você deixa a sua marca em tudo o que faz. Sempre foi assim? Ou demorou para você achar a sua cara?

Não achei desde o início e estou sempre em busca da evolução. O pop, os contornos pretos, o traço não muda, mas evoluir é bom para não ficar repetitivo. Sempre busco alguma coisa diferente. É um equilíbrio entre estilo e inovação.

Ana Strumpf

Foto: Alessandro Guimarães

Tem algum ritual durante suas criações?
Às vezes eu anoto para não esquecer. Gosto de desenhar no meu local de trabalho, com meu chá que eu adoro, com minha prancheta. Desenho para cima para não ficar com dor na cervical.

O que a arte de criar significa para você?
90% trabalho duro e 10% inspiração. Fazer e refazer. Ócio criativo sempre. Viver de criatividade não é fácil.

Tem algum trabalho favorito?
Gosto dos meus trabalhos autorais, das capas de revista. Adorei um editorial que fiz para a Elle México ultimamente. E dos editoriais que fiz para a Vogue Brasil.

Para você, o que é ser pop?
Ser pop é ser popular, atingir as massas sem me trair. Me respeitando sempre.

O que tem escutado de música?
Fui no último Lollapalooza, assisti ao show do The Weekend. Adoro ir em shows. Tenho ouvido uma banda de soul chamada Cymande. Adoro hip hop, música negra. Drake, Erykah Badu, Kendrick Lamar…