Onde a imagem encontra a linguagem

Foto: Pedro Garcia (Cartiê Bressão)

Ainda criança, Maria Lago cresceu entre os 10 mil livros do pai que compunham um acervo digno de biblioteca nenhuma botar defeito. Assim nasceu um interesse nato não só pela literatura, mas também pelo design das obras.

Maria sempre esteve envolvida em todas as etapas do processo editorial, tendo experimentado, inclusive, a prática de encadernação artesanal. Originalmente FAMILIA foi sua marca de papelaria por encomenda, cujas as peças únicas eram desenhadas e executadas à mão pela designer. Hoje, FAMILIA é o selo de seu estúdio criativo, especializado em narrativas visuais e da recém lançada editora de edições limitadas de fotolivros e livros de artista.

A paixão pela linguagem ganha novos contornos na vivência de Maria, que incorpora a estética em tudo que faz. No ano passado, lançou Onde o Rio encontra o mar, com trabalhos de 9 fotógrafos que encararam o desafio de retratar o diálogo entre a praia e a cidade (maravilhosa) a partir de um olhar nada óbvio.

Hoje, a designer e diretora de arte também se lança na fotografia. Abraça toda a liberdade que sente morando em NY, adiciona pitadas de tempero carioca e espanhola – Maria já morou em Madri – para fotografar sem amarras, de maneira crua, original e espontânea. Com ela, a arte é menos tendência e mais essência.

Confira a entrevista:

Você tem uma forte relação com livros, tanto forma quanto conteúdo. O que o encontro entre imagem e linguagem representa para você?
O livro foi umas das formas que encontrei de contar histórias através de uma linguagem visual e de um suporte que durem no tempo. Minha cabeça pensa o tempo inteiro em como contar coisas desde um ponto de vista diferente, para que mesmo as mais banais sejam vistas de forma diferente e ao mesmo tempo fiquem registradas na memória. Eu não sigo tendências, me interessa mais pensar em como traduzir conteúdos que toquem as pessoas. Livro envelhece bem, diferentemente da maioria dos suportes digitais. Ganha mais vida com o tempo, é pessoal.

Você cresceu rodeada por livros. Conta um pouco sobre sua relação com eles.
Sim, o pessoal na minha família é meio exagerado (risos). Tanto a família da minha mãe como a do meu pai tem uma base intelectual muito forte. História, arte, política e cultura fazem parte da minha educação. Meus pais vêm de famílias internacionais, que sempre viajaram muito e se criaram no mundo, absorvendo diversidade e cultura geral. Meu pai tem mais de 10 mil livros em casa, sobre tudo o que você possa imaginar, entre eles uma coleção respeitável de livros raros antigos (incluindo edições do século 16, encadernados em pergaminho e couro). Eu estou construindo minha coleção com outras características, mais focada em fotolivros e livros de artista contemporâneos, edições limitadas. Não passo ainda dos 1.100. Meus tios também colecionam, um deles é, inclusive, editor. Eu cresci entre livros, apreciando e respeitando-os como forma e conteúdo. A biblioteca é o meu maior patrimônio material, junto com minha coleção de sapatos (risos).

Imagens: F0otolivro autoral – Passado, Presente, Futuro

Quais são suas principais memórias afetivas em que os livros estão presentes?
Tem uma historinha que conto de vez em quando: aos 2 anos e meio, acordei de manhã cedo, fui ao corredor da casa em que vivia com meus pais e comecei a mexer nos livros na prateleira mais baixa, a única que alcançava. Meu pai acordou em seguida e me pegou no flagra, me deu uma bronquinha e um tapa inofensivo na mão dizendo: “ai, ai, ai, com livro não se brinca.” Aprendi. Lembro dos meus pais lendo o tempo todo e eu sabendo respeitar isso. Da gente sempre puxar um livro da estante buscando referência durante uma conversa. Os meus livros de infância que tenho até hoje e considero grandes marcos do design editorial infantil são Flicts, do Ziraldo, e Onde vivem os monstros (Where the wild things are) do Maurice Sendak. Também sempre gostei muito de um livro que herdei da minha mãe, Eloïse, sobre uma menina que morava no Hotel Plaza em NY, hoje, curiosamente, cidade que escolhi como lar.

Como é o processo de criação de design editorial?
Sempre começo pensando na história que vai ser contada, como e por quê. Qual seria o formato adequado para isso e quais recursos visuais se adequam a essa narrativa. Eu costumo participar do processo inteiro da geração de um livro, desde a ideia original à criação de uma equipe, quando necessário, e produção/impressão final que resultam no objeto finalizado. Ou seja, o design é um ferramenta, parte do processo, mas minha cabeça funciona de forma mais ampla, com olhar de edição e direção de arte.

Como a encadernação artesanal entrou na sua vida?
Eu sempre tive necessidade de trabalhar com as mãos, minha formação é mais artística do que acadêmica, fiz anos de aulas no Parque Lage e muitas vezes tenho necessidade de envolver corpo no processo criativo. Quando me mudei para Madri, em 2004, estava começando minha primeira formação teórica em design (Master em Design Editorial no Instituto Europeo di Design de Madri). Senti falta do trabalho manual, uma amiga do curso me sugeriu experimentar umas aulas num ateliê de encadernação artesanal perto da Escola. Amei. Me identifiquei imediatamente, pois de alguma forma me sentia entrando no corpo de livro, entendendo todos os seus detalhes e variações de comportamento do objeto, como se fosse um processo cirúrgico em que entrava em contato com as entranhas do objeto livro. Por alguns anos desenvolvi essa paixão, o que acabou resultando da criação da minha marca FAMILIA, de papelaria por encomenda (peças únicas numeradas). Eu criava, desenhava e executava cada peça. Foi uma fase muito criativa, montei o ateliê em casa.

Onde o Rio encontra o mar aborda o estilo de vida carioca. O que ele traz de diferente dos outros livros de fotografia do Rio?
O livro é um olhar contemporâneo sobre o encontro da cidade com a praia, característica tão particular do estilo de vida carioca. Como vivemos a vida urbana emaranhada num grande balneário e vice-versa. Os rituais e costumes da vida carioca vêm de outros tempos, mas continuam se repetindo com algumas adaptações de acordo com as transformações urbanas sofridas pela cidade. Minha ideia era mostrar o Rio de dentro, o Rio nosso, cotidiano e intimista, com o olhar de fotógrafos cariocas que desenvolvem um trabalho, na minha opinião, bastante fresco e contemporâneo sobre o Rio de ontem e hoje. Quando convidei os fotógrafos para participar do projeto, uma das principais abordagens foi como mostrar esse diálogo da cidade com a praia através de imagens que não costumamos ver em livros sobre o Rio. Todos os colaboradores do livro, inclusive eu e a Bel De Luca (que escreveu o texto de introdução), tivemos experiências fora do Brasil e voltamos ao Rio adquirindo uma nova sensibilidade e ampliando o olhar sobre como percebemos nossa cidade e seus detalhes que, por fazerem parte de um cotidiano tão intrínseco, não costumam ser retratados.

O que do lifestyle carioca há em você? Incorporou o tempero espanhol e o nova-iorquino no seu jeito de viver? Como se dá essa mistura?
Eu sou uma carioca do mundo, com temperos de todas as partes. Mas sou carioca. Sinto uma falta enorme de ter a praia ao lado, de sair com dinheiro contado para o coco, a canga e o chinelo no pé. Da espontaneidade do dia, de como as coisas rolam sem planejar, de como posso sair de casa para o mergulho e voltar para casa depois da festa as 2 da manhã sem ter nem pensado que começaria e acabaria o dia com o mesmo biquíni. Do estilo de vida espanhol posso dizer que incorporei facilmente os horários tardios, sou bicho da noite, funciono bem na segunda metade do dia, tanto para criar como para me divertir. Gosto de comer bem e beber bem. NY é minha casa, onde sou o melhor de mim, encontro a liberdade de ser e a abertura para a diversidade que não encontrei no Rio e em Madri com a mesma fluidez. NY me nutre de arte e cultura, elementos fundamentais para a minha vida em geral, já que hoje não separo trabalho de vida. Criação e diversão caminham juntos. Aqui comecei a fotografar, me arrisco mais, me exijo menos e acabo trabalhando com mais qualidade graças a essa sensação de liberdade. Nessa cidade também encontrei muitas pessoas com quem tenho trocas criativas incríveis.

Propomos um desafio. Se pudesse escolher apenas 5 livros para levar com você onde quer que fosse, quais seriam?
– Um deles seria o da infância, Where the wild things go – por ser um dos meus primeiros livros e ter as ilustrações mais fabulosas. Gosto muito de livros infantis bem feitos e bem ilustrados.

– Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Marques.

– Qualquer edição da poesia de Carlos Drummond de Andrade.

– Um catálogo raro de tipografia da ATF (American Type Founders) de 1923 – minha bíblia tipográfica. Iconografia do Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, do Carybé – obra-prima entre os livros de artista brasileiros, que meu padrinho tão carinhosamente me presenteou.

– Sobre arte e estética, são tantos que prefiro guardar na minha cabeça as referências mais marcantes. Prefiro um caderno de notas em branco para que eu possa preencher a lápis.

Fotos: Maria Lago

No seu Instagram, o cotidiano é capturado de maneira crua e pouco óbvia. Você concorda? Como busca impactar as pessoas através da fotografia?
Eu ainda sou meio desastre usando Instagram (risos). Minha cabeça é mais old school. Concordo com o “pouco óbvio” e confesso que não sei usar direito, ainda não incorporei a espontaneidade da ferramenta. Fico no meio do caminho entre o pensado e o não pensado. Não costumo usar filtro, no máximo dou uma corrigida na luz/tom por vício de designer/editora de fotografia. Não são fotos lindas. Na fotografia em filme acho que tenho uma linguagem mais própria, apesar de ainda estar engatinhando na exploração desse campo. Mas por ter olho de editora e diretora de arte, facilita. Com as mídias sociais, acho que ainda tenho mais medo de errar, por haver uma exposição tão excessiva e pouco filtrada.

Fotos: Maria Lago

Quais designers e/ou fotógrafos mais te inspiram no momento?
Eu não sigo muito ninguém, sou pouco ligada em tendências. Minha inspiração vem da vida real, do que vejo na rua mesmo. Cores, texturas, moda, formas, pessoas, coisas, comida, luz, sensações. Minhas referências artísticas são fotógrafos como William Eggleston e Diane Arbus, que sempre me inspiram. Nas origens do design, Bauhaus e construtivismo russo, design editorial holandês, são muito atemporais e geniais em tipografia. Gosto de perceber risco e espontaneidade nas coisas. Sentir que tem alma e provocam sensações. Estive no Japão esse ano, então arte, moda, arquitetura e fotografia japoneses tem sido referências fortes no momento. A visita a Naoshima foi um “antes e depois”. Aliás, gastronomia também é grande fonte de inspiração para mim, estou envolvida com alguns projetos nesse campo. O trabalho da fotógrafa espanhola Cristina de Middel, autêntico e embasado, é o que tenho visto de mais original e criativo. Acho muito difícil criar algo original em tempos informação visual. Inspiração é muito bom, mas quando de fato há intenção de contar algo novo, ou com um olhar diferente.

Maria Lago

Fotos: Cristina de Middel, Diane Arbus, William Eggleston

Lilian Pacce, mil em uma

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

Lilian Pacce mostra que a moda vai muito além. Tem a ver com cultura, curiosidade, criatividade, expressão, linguagem, conforto, afeto, identidade e originalidade. Ufa! Para uma das jornalistas mais renomadas do mundo fashion, a moda possui mil e uma faces e é, ao mesmo tempo, estar nua. Você pode se expor e comunicar o que quiser através dela.

Não à toa, comunicar é uma paixão de Lilian. Além de entrevistar nomes badalados da moda e mostrar o que há de mais quente nas passarelas, a apresentadora e editora do GNT Fashion escreveu vários livros, entre eles “Biquíni made in Brazil” e “Ecobags – Moda e Meio Ambiente”. Curiosa como boa jornalista, ela tem sede de pesquisa e busca entender muito mais que tendências, mas a essência do comportamento por trás da estética.

E se a moda tem mil faces, Lilian tem mil fases: ela conta que seu estilo muda de acordo com os momentos da vida. Sorte a nossa poder olhar a moda e suas nuances através desse olhar apurado e múltiplo!

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

“Moda é eventualmente estar nu”, você definiu em entrevista, citando Viviane Westwood. Por quê?
Porque tudo é uma escolha, uma expressão. Escolher vestir algo ou não vestir significa muito.

Como você relaciona moda, linguagem e expressão?
A moda é linguagem e expressão – quem não percebe isso, não sabe o que está perdendo. Ela pode ser uma ferramenta e tanto a seu favor, trabalhando para o seu bem-estar.

Como você interpreta o seu estilo? 
Eu não tenho estilo, tenho fases. Admiro quem é fiel a um único estilo a vida inteira, mas sou pisciana, adoro mudar.

Qual dica você dá para quem tem dificuldade de encontrar uma assinatura visual?
Ter uma assinatura visual traz muito conforto e identidade. Para isso, você realmente precisa se conhecer e saber o que você quer comunicar. Claro que é possível quebrar padrões. Steve Jobs mostrou que não é preciso usar terno e gravata para ser um executivo genial. Mas aí já entramos no terreno das exceções. Se você quer ser uma executiva, por exemplo, não adianta ir trabalhar de jogging, isso só vai complicar sua vida.

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

Seu objetivo inicial como jornalista era trabalhar com política e mudar o mundo, mas (felizmente) entrou para a moda. Com ela, como você pode mudar o mundo? A moda é um agente de mudança?
Sim! Esse poder catalizador da moda ficou claro nos anos 60, quando surgiram as camisetas-slogan. Quando fiz a exposição de Ecobags (que virou o livro Ecobags, Moda e Meio Ambiente) senti na prática esse poder catalizador, numa grande conscientização das pessoas para diminuir o uso de sacolas plásticas descartáveis. Ou mesmo agora, com o desafio de #1lookporumasemana, que consiste em escolher uma base (um vestido, uma saia e blusa, uma calça e blusa) e usá-la por pelo menos 5 dias úteis (vale trocar acessórios, fazer sobreposições etc.) Os depoimentos de quem topou o desafio são incríveis (e o desafio continua, viu?). #1lookporumasemana é um ótimo exercício de estilo, de criatividade, de sustentabilidade, na contra-corrente do descartável #lookdodia. Repetir roupa é bacana! Fiz um vídeo no meu canal no Youtube em que falo sobre isso, sobre como é gostoso criar intimidade com a roupa, como a roupa traz memória afetiva.

Qual é a melhor parte de ser apresentadora e editora de um programa de moda?
Ter acesso a pessoas e lugares interessantes e promover esse acesso para a audiência.

A moda é uma ótima ferramenta para entender como as pessoas se relacionam com o corpo. E a história do biquíni tem tudo a ver com isso. Como você avalia a relação das brasileiras com o corpo ao longo tempo?
A evolução do traje de banho em geral e do biquíni em particular é reflexo das conquistas da mulher nos últimos 100 anos. No livro “O biquíni made in Brazil” procuro mostrar bem essa evolução e como a brasileira teve papel fundamental para promover o nosso biquíni mundo afora.

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

Pingue-pongue:
3 modelos incríveis… Gisele, Dalma Callado, Betty Lago.
3 peças indispensáveis no armário… Calça jeans, calça preta e uma jaqueta.
3 características importantes para trabalhar com moda… Ter muita curiosidade, muita cultura e um pouco de rebeldia.
3 palavras que melhor definem moda… Sonho, necessidade, expressão.
3 maiores aprendizados da sua carreira… Se você realmente quer viver disso para sempre, ande na linha, lute pelo que você acredita e seja o mais ético possível.

Uma limonada nada azeda

Marcos Piangers

Foto: site pessoal

Hoje com 37 anos, Marcos Piangers cresceu sem ter a figura paterna por perto. Mas sabe aquele ditado que diz para fazer do limão uma limonada? Ele fez exatamente isso, com (muito) açúcar e afeto. Quando chegou a sua hora de ser pai, decidiu se dedicar plenamente às suas filhas, Anita e a Aurora, e descobriu que a paternidade pode ser a melhor coisa do mundo.

Essa experiência até então desconhecida o motivou a escrever sobre o novo desafio de maneira despretensiosa, em textos divertidos e emocionantes. Até o dia em que foi convidado para publicar seu primeiro livro, “O papai é pop”, que teve todo o dinheiro da venda dos 100 mil exemplares doado para crianças em situação de fragilidade social.

“Não preciso de mais dinheiro, preciso de um mundo mais justo, de mulheres respeitadas”, explica o jornalista, que hoje dá palestras sobre o assunto e incentiva a igualdade de gêneros.

Fica aqui nosso desejo de um mês de agosto especial para ele e todos aqueles que escolhem ser pais. Afinal, é como Marcos mesmo diz: “Ser pai é uma escolha”. E que bela escolha!

Foto: Julio Cordeiro/Agência RBS

Confira a entrevista:

Da onde vem esse desejo de falar sobre paternidade?
Uma vez me falaram uma coisa que achei engraçada: “Nasce um filho e nasce um blog de mãe”. A maternidade está envolta de romantismos e mistérios. A motivação foi a mesma de uma mãe que faz um blog. A necessidade de compartilhar com as pessoas tudo aquilo que eu estava vivenciando, tempos difíceis e ao mesmo tempo encantadores que a gente tem quando convive com crianças. Minha primeira filha nasceu em 2005 e, como todo homem, não fui muito preparado para aquele momento. Os homens são incentivados a ser grande realizadores, ganhar dinheiro. Temos incentivo desde pequenos a ser jogadores de futebol, aventureiros. Enquanto isso a mulher é mais preparada, brinca de casinha, de boneca. Desenhos animados incentivam a sonhar com um príncipe, formar uma família. Quando minha filha nasceu, uma série de “desromantizações” aconteceram, depois tínhamos a questão de morar longe da família, tudo isso foi me levando a escrever textos como forma de terapia, para eu guardar para mim. Eles são muito crus e sinceros.

Você se sente mudando vidas?
Não me sinto mudando vidas. Eu recebo muitos comentários dizendo que isso acontece, que os vídeos e textos têm um impacto grande na vida familiar, fico sempre surpreendido e impressionado com esses depoimentos. Ao mesmo tempo fico intimidado com esses comentários porque são muito sérios e tocam em assuntos muito importantes. Se você parar para pensar, o núcleo familiar é aquilo que define a nós e a nossa existência. Por mais que você seja um profissional incrível no que faz, a verdade é que você chega no final da vida e começa a avaliar as coisas que são importantes e geralmente elas giram em torno do tempo que você não deu para sua filha ou filho, que você não valorizou sua esposa, dos arrependimentos relacionados a quem você ama. Se a gente puder entender o que importa antes do final da vida, melhor. A gente vai ser mais feliz.

Marcos Piangers

Foto: Facebook

Como chegar a um meio termo saudável entre vida profissional e paternidade/maternidade?
Essa é uma batalha. Acho que a gente pode começar desromantizando a falta de tempo. Tem ainda um culto para aquele cara que não tem tempo para nada, está sempre na correria. Quando perguntam como está a vida, ele tem prazer em dizer que está correndo. Aquilo o faz se sentir útil, produtivo, realizador. Isso é uma romantização de um processo que acaba nos afastando da felicidade. Se começamos a entender que o que nos deixa mais felizes não é dinheiro, nem fama, nem poder… Tem a ver com uma vida mais simples. Você pode sim trabalhar menos, ganhar menos. Talvez você não precise colocar seu filho na escola mais incrível, ter um carro grande ou um apartamento gigante, no melhor local da cidade. Para ser feliz, podemos ir contra essa tendência de consumo. Você precisa perceber o que é importante na vida e focar nisso. O que eu fiz foi hierarquizar tudo isso, coloquei numa listinha e fui tirando algumas coisas. Comecei tirando um pouco do meu sono. Eu resolvi desligar WhatsApp, internet até 23h para jantar com elas, dar banho nelas, leio história para dormirem. Ter uma vida bacana juntos. Depois que elas dormem eu vou trabalhar mais um pouco, responder e-mails e resolver demandas. Tirei um pouco de vida social também, em vez de ficar bebendo com os amigos, ir a churrasco, futebol, priorizo o tempo em família.

Como preparar melhor os homens para serem pais?
Falando sobre isso com seu filho, não sexualizando a criança desde muito cedo. Vejo muitos pais virando para os filhos pequenos e dizendo “você vai ser namorador”. Vai colocando na mente do menino que ele não tem que participar da vida familiar. Nesse tempo devemos deixar a criança livre para explorar as potencialidades e muitas vezes falando para os meninos que eles podem ser grandes pais, formarem uma família. Naturalizando a criação dos filhos. Homem também troca fralda, divide as tarefas de casa. Se possível, um marido referencial muda tudo na cabeça do menino. Se o homem for participativo, sensível, pai de verdade, consequentemente vai influenciar o filho.

Marcos Piangers

Fotos: Facebook

Qual é o seu programa favorito para fazer com as suas filhas?
A gente adora andar de bicicleta, pintar, fazer nossos jogos de tabuleiro. Colocamos no jogo as situações que estão acontecendo na nossa vida. Se cair na professora de inglês, tem que contar até 10 em inglês para sair daquela casa. Esse tipo de personalização. Colocar ruas que a gente passa na cidade. É muito barato esse jogo, precisa só de um papel, uma caneta, dados e objetos para representar os jogadores. Adoramos ir ao cinema, ler juntos. Ultimamente tenho estudado muito com a minha filha mais velha. A gente tem conseguido transformar num processo divertido de aprendizado mútuo. Tenho reaprendido história, geografia e matemática.

E como é ser pai de duas meninas?
É incrível, encantador, lindo. Elas me ensinam o tempo todo a ser mais sensível, ter um olhar mais lúdico e curioso acerca do mundo. Elas são muito carinhosas, me acordam com beijo e abraço, são muito inteligentes, doces. A Anita é muito perspicaz. Ela tem comentários muito interessantes que me fazem aprender. A Aurora é um encanto, ela já acorda sorrindo e cantando. Ela adora tudo. Se eu pergunto: “vamos no supermercado?”, “vamos lavar louça?”, “vamos andar de bicicleta?”, “vamos para a escola?”, ela sempre responde: “sim!”. Ela gosta de tudo, abraça a vida com um otimismo que eu não tinha e estou desenvolvendo por causa dela. Ser pai de meninas me deu uma nova reflexão sobre as diferenças de gênero, de como as mulheres são o tempo todo desrespeitadas e diminuídas. Como eu posso mudar e influenciar meus amigos a não serem tão grosseiros com as mulheres.

Marcos Piangers

Fotos: Giselle Sauer/Divulgação

As suas filhas já te falaram o que elas mais gostam em você?
A minha mais nova é tão fofinha que ela diz o tempo todo que me ama, que ela me acha legal e adora fazer tudo comigo. Já os momentos mais especiais com a minha mais velha são quando a gente anda de bicicleta e conversa sério sobre assuntos interessantes. Converso com ela como se fosse um adulto. Ela é tão interessante, é minha amiga mesmo. A gente se entende.

Como é a dinâmica de vocês dois como casal na criação das meninas?
A gente conversa muito. Acreditamos que temos que ter tempo exclusivo para a gente também, não só com as filhas. A gente pede esse tempo exclusivo para as meninas, somos mais felizes quando afinados essas questões, então isso faz com que a gente converse muito. A gente tem que verbalizar, botar para fora o que está sentindo para se acertar como casal e continuar junto. Estamos juntos há 14 anos nessa batalha.

O que você acha de conceitos como criação com apego e disciplina positiva?
Não entendo muito do assunto, mas gosto dos nomes, “criação com apego” acho irado do pouco que li na internet. Ao mesmo tempo, é importante ter um equilíbrio para não transformar a criação de um filho em religião. Todos os métodos têm pontos positivos e negativos, não podemos ser extremistas e só enxergar os pontos positivos e ignorar os negativos de toda a filosofia. Cada família tem um jeito, quanto menos a gente julgar, mais saudável e feliz cada um vai ser com aquilo com funciona para a dinâmica familiar.

Você gostaria de dizer alguma coisa para o seu pai caso um dia o encontrasse?
Ele não é meu pai, ele teve apenas uma participação biológica. Ele teve uma contribuição genética. Meu pai de verdade é a minha mãe. Hoje meu pai é a minha sogra, são os irmãos da minha esposa. A minha mãe biológica é minha mãe adotiva também porque ela me criou. Eu sou o pai adotivo e biológico das minhas filhas também. Família é afeto, não é genético. Esse cara não é meu pai, é um estranho que teve uma participação genética. Eu estou bem tranquilo em relação a isso, não vou ficar buscando uma ligação com um estranho. Algumas pessoas religiosas me perguntam se eu o perdoei. É óbvio, não perdoar é dar muita importância. A minha esposa já foi atrás dele na internet e viu que ele tem filho, é participativo hoje em dia. É comum ver pais que abandonam os filhos no Brasil. Quanto mais a gente conversar sobre esse assunto, entenderem que a vida participativa com os filhos pode ser divertida, realizadora, satisfatória, plena emocionalmente, mais os homens vão ser felizes. Às vezes a gente é muito triste por trás dessa máscara de “machão”, sem sentimento, sem falar “eu te amo” para as mulheres e os filhos.

Como é sua rotina hoje?
Temos a sorte de conseguir trabalhar remotamente. A gente pôde se mudar para uma cidade que tem mais família por perto. Pela primeira vez na vida eu tenho uma família grande, tenho almoço de domingo. A gente foi para Curitiba, que é onde fica a família da Ana, minha esposa, e agora estou muito feliz porque acordo 6 da manhã, acordo minha filha, tomamos café juntos, levo na escola. Às 9h levo minha outra filha para a escola, pego a mais velha. Enquanto trabalho, posso ficar com elas. A gente está numa dinâmica fantástica de intimidade, de bastante conversa e afeto. Demorou anos para a gente conseguir montá-la, durante anos moramos longe da família, nunca tivemos babá, os livros e textos descrevem isso. Mas finalmente a gente conseguiu um desenho bem gostoso de família. A gente tem que desenhar nossa vida para ser mais feliz, não mais rico ou famoso.

Qual foi a coisa mais impressionante que você ouviu de um leitor/espectador?
Foi muito marcante o dia que um cara falou que ia se matar. Acordou cedo, estava muito deprimido, fez um monte de besteira na vida. Parou num bar para beber de manhã cedo, abriu um texto no Facebook e leu um texto meu dizendo que a vida é longa. Todo mundo diz que a vida é curta. Mas a vida é longa, todo dia você tem a chance de ser uma pessoa melhor, mais atenciosa, sensível, legal com os outros. Quando ele leu esse texto, estava comprometido em se matar. Tinha um filho de 7 anos e era separado da mulher. Ele leu o texto e viu que tinha a chance de mudar tudo. Também recebo muitos depoimentos de mães abandonadas no Brasil, é muito triste ver como é comum. Adoro as histórias de pais incríveis que me ensinam muito. Um dia encontrei um pai maneiríssimo de 3 filhas adolescentes que viajou mais de mil quilômetros para levar as filhas numa palestra sobre programação robótica, para elas aprenderem mais sobre programação. Elas já programam, mexem com coisas do futuro, fazem aplicativos, sites, softwares. Um paizão. Acho importante celebrar esses pais porque eles são exceção que podem influenciar outros homens, dar mais espaço para as mulheres serem iguais a nós profissionalmente. Igualizar salários, gêneros. Isso é transformador. Teve um pai de 4 filhos que me influenciou a ter um tempo exclusivo com minha filha mais velha depois que a mais nova nasceu. Ele faz isso com os filhos, passa um tempo com cada um deles separadamente. Não sou influenciador, sou influenciado. Aprendo muito com outros pais.

 

A musa dos novos tempos

Roberta Sá

Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Com uma voz potente e ao mesmo tempo doce, Roberta Sá se permite transitar com desenvoltura entre várias vertentes da música brasileira a cada novo projeto. Seu mais recente álbum, Delírio, traz um perfume feminino à cadência do samba, gênero para o qual a cantora traz um fôlego renovado, com elegância e emoção.

Arrastando a sandália – de salto – Roberta Sá invade com charme esse território tão dominado pelos homens, cativando cada vez mais seu lugar na MPB. E suas canções refletem isso, uma mulher que corre atrás, dona do seu destino, que abraça suas imperfeições e busca o equilíbrio.

Delírio aposta em parcerias afinadas que traduzem essa força: em Me Erra, composta por Adriana Calcanhoto, cansa-se de esperar um amor, toma as rédeas e torna-se rainha da própria bateria; em Amanhã é Sábado, escrita por Martinho da Vila, é uma mulher independente, trabalhadora, que comemora a chegada do final de semana para descansar e ganhar um dengo gostoso. No disco, Roberta também faz um novo e delicioso dueto com Chico Buarque.

Hoje, a potiguar se prepara para novos projetos, lançando-se no mundo sempre com muita paixão pelos seus maiores delírios: o palco e a criação. Por aqui, mal podemos esperar!

Roberta Sá

Fotos: Site Roberta Sá/divulgação

Você disse que um dia reparou que seus álbuns preferidos eram “imperfeitos” e por isso incorporou a vertente de pouca edição ao “Delírio”. Na música “Um passo à frente”, você diz canta “minha imperfeição é a voz da vez”. Como você leva isso para o seu dia a dia? Consegue abraçar suas imperfeições com naturalidade?
Acho que a maturidade traz isso. Aos 20 eu não conseguia, aos 36 não só aceito, mas também abraço como parte da minha personalidade. Rir de si, não se levar tão a sério foi importante nesse processo. A imperfeição é uma conquista.

Qual é a sua imperfeição mais charmosa?
Eu sou muito gulosa. Amo comer e não existe a possibilidade de eu abrir mão desse prazer por estética. Claro que cuido da saúde, mas nos dias de hoje, acho um charme uma mulher que come sem culpa.

E qual é o seu maior delírio?
O palco, a criação. Meu trabalho é minha paixão. Tenho essa sorte imensa e sou cada dia mais grata e reconhecida.

Roberta Sá

Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Na música “Amanhã é sábado”, escrita pelo Martinho para você, a mulher toma as rédeas e deixa de ter um lugar passivo. O que interpretar essa canção representa para você?
Tenho observado uma mudança de comportamento e posicionamento nas mulheres que me cercam. Elas são independentes, donas dos seus destinos, mas não abrem mão de um colinho. A música fala disso e eu me identifico cem por cento.

Como você enxerga o lugar da potência feminina no samba? Você vê uma mudança?
Antigamente as mulheres eram as musas, as que faziam o feijão para a roda. Depois viraram as divas, as que descobriam os compositores. Hoje elas contam suas próprias histórias, falam dos seus desejos, medos e questões nas suas composições. Acho que mulher cada vez mais conquista novos espaços sem perder o que já era seu.

Falando em mulher, vimos que uma das suas maiores influências é a Carmen Miranda. O que você mais admira nela?
Tudo! A Carmen foi uma mulher que fez questão de cantar em português quando em Hollywood achavam que no Brasil se falava espanhol. Uma atitude política, consciente, que levou o samba e o país para o mundo inteiro com muito charme, carisma e originalidade. Criou um personagem que até hoje é copiado e lembrado. Um grande mulher à frente do seu tempo.

Roberta Sá

Foto: Daryan Dornelles

“A tristeza é senhora”? Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza?
Sempre! Tenho a sensação que as pessoas hoje têm a ilusão de que se pode ser feliz o tempo inteiro. Isso não é felicidade, é euforia. Ser feliz, para mim, envolve reflexão, recolhimento e um pouco de tristeza. 

O que mais é preciso? O que te inspira a cantar? O amor é senhor?
Acho que a simplicidade da vida. Eu vejo graça em deitar no sofá e ver um filme de cuca fresca. Para mim o amor está no cotidiano. E buscar um dia a dia mais prazeroso é o que me faz cantar melhor.

O que o “Delírio” trouxe de mais enriquecedor para sua carreira?
Encontros, sempre! Com Martinho, com os músicos que estão comigo nessa jornada.

Qual é a maior diferença entre a Roberta como cantora no início da carreira e a Roberta de hoje?
Eu era uma menina sonhadora, hoje sou uma mulher que corre atrás, realiza seus sonhos e administra suas frustrações.

Qual é a sua relação com a moda?
Gosto muito. Uma roupa bonita é capaz de mudar seu astral, elevar sua autoestima. Mas tenho tentado consumir com consciência. Gosto de investir em qualidade.

Qual foi a última música que você escutou antes dessa entrevista?
Sina de Cigarra, do Jackson do Pandeiro.

Para terminar, queremos saber seus próximos planos. Tem algum projeto à vista?
Tenho muitos. Em agosto vou para a Suíça cantar no Auvenier Jazz Festival, depois devo tirar férias para entrar em estúdio ainda este ano.

Sensibilidade estética em prol da criatividade

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: Leo Martins

Quando você pensa em arquitetura e décor, vem à sua cabeça aquelas reformas que botam tudo abaixo e substituem os objetos antigos por novos? Há 4 anos, a criativa Marina Ribas criou dois conceitos inovadores e sustentáveis que subvertem esse lugar comum: a Arquitetura Emocional e o Non D’ecor, que reinventam os espaços de maneira afetiva, recuperando o valor de peças abandonadas.

Aqui na Maria Filó, Marina usou essas vertentes criativas para desenvolver um lindo projeto que humanizou nosso escritório. A partir de objetos aparentemente sem significado, ela trouxe uma nova atmosfera ao espaço, que respeita nossa história e aguça nossas memórias emocionais.

Essa sensibilidade estética vai além. “Acredito que a criatividade e a funcionalidade das coisas podem se aterrissar em vários mundos”, conta ela, que hoje também abraça projetos de cenografia, Visual Merchandising, direção de arte, identidade visual, branding de estilo de vida (quando uma pessoa de apresenta como marca) e ainda dá aula no IED (Instituto Europeo di Design). Ufa!

Quer dizer, não para por aí. Marina tem cada vez mais flertado com o universo das artes plásticas. Ao lado do Fred Gelli, seu marido, acabou de participar do processo lúdico de co-criação da marca do Parquinho Lage, nova escola de arte para crianças que homenageia o artista Palatnik e deve inaugurar mês que vem.

Que ela continue nos encantando com sua sensibilidade, originalidade e criatividade!

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: arquivo pessoal

Para começar, queremos um pouco saber sobre você. Conta um pouco sobre sua trajetória profissional.
Minha formação foi em Design, com habilitação em Design de Produtos e Comunicação Visual. Durante a faculdade, eu trabalhava no escritório de arquitetura do Hélio Pellegrino, que usava material de demolição e revia a função dos objetos, hoje prática bem comum no universo da arquitetura. Na época era inovador, então foi uma experiência maravilhosa, aprendi muito. Depois montei um ateliê com uma amiga, fizemos vários objetos de acrílico, como luminárias e painéis, para vender. A criação sempre fez parte do meu universo. Depois me tornei freelancer, segui meu caminho sozinha no Design de Produtos. Foi então que me juntei com uma amiga, a Lola Lustosa, em 2006, e criamos uma marca de roupas fitness superfashion. Queríamos tirar o fitness desse lugar esportivo, para sair de casa toda linda sem precisar estar de legging. Depois dessa fase inicial, me tornei coordenadora de VM, juntei os ambientes da arquitetura, do design e da moda num lugar só. Estava em crise, eu queria ser designer gráfica, trabalhar com decoração e moda. Descobri o VM como oportunidade de juntar esses 3 universos. Trabalhei em outras marcas, paralelo a isso tinha meu projeto de artes plásticas. Depois parti de novo para a carreira solo.

Como você define o conceito de Arquitetura Emocional?
É um conceito que ressignifica os espaços, traz a capacidade de reinventar um ambiente com o que tem nele, recupera o valor de peças que antes estavam abandonadas. O trabalho de arquitetura emocional fala muito desse reaproveitamento, desse olhar.

E o de Non D’ecor?
Não acredito num trabalho de decoração que não leve em conta a verdade de quem mora no lugar. Gosto muito de pensar num espaço com a verdade e as memórias afetivas daquela pessoa impressas nele. Objetos importantes que construíram uma base para ela se desenvolver. Às vezes um objeto parece não ter significado, mas conversando com o morador, você descobre uma história por trás. Às vezes, decoradores ignoram a vida da pessoa. O conceito do non d’ecor não acredita numa decoração fria, mas humana. A capacidade de olhar para o lugar e ver as potências que ele tem, entender como as pessoas desfrutam do espaço, depois o que tem valor para ser mantido e o que pode ser descartado.

Como foi o processo de aplicar a Arquitetura Emocional aqui na Filó?
No trabalho que fiz para a Maria Filó, olhei para o acervo do VM, da equipe que tinha o material de vitrine. Em vez de fazer um novo projeto, reformular a empresa, meu desafio foi de captação e imersão de valor humano a partir do recurso interno. Eu fiquei durante 3 meses trabalhando dentro do escritório, entrevistando as pessoas, tive uma visão muito global. Fiz uma catalogação do que eu achava ser interessante de reaproveitar e como aquelas peças abandonadas poderiam ganhar outro valor. Pegamos sobra de tecido do estoque e desenvolvemos as luminárias junto às costureiras, resgatamos peças e usamos no décor das paredes. Foi um trabalho de resgate, reorganizamos o espaço, revestimos as peças, reformamos o mobiliário com material interno.

O design é sua maior paixão?
A minha paixão é a existência. Minha verdadeira paixão é todo esse processo criativo de sensibilidade estética. Por isso ficava em crise quando era mais nova e não tinha tanta experiência. Acredito que a criatividade e a funcionalidade das coisas podem se aterrissar em vários mundos. Tanto do Design de Interiores quanto no Design Gráfico. Abraço muitas frentes. Sou uma figura criativa e sensível. Pensar um espaço físico demanda uma energia criativa igual a eu fazer um trabalho de arte ou design. O que muda são a materialização de trabalho, que usam técnicas diferentes, e relacionamentos profissionais que criamos, eles trazem muito aprendizado.

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: arquivo pessoal

Quais são suas principais referências estéticas e criativas?
Gosto muito do período neoconcreto, do modernismo. A arte é minha maior fonte de inspiração. Cada movimento artístico teve um valor extremamente importante. Claro que tem alguns artistas que amo. Ontem, ao encontrar o Palatnik, eu dei uma “choradinha” de emoção. Inevitável estar diante de uma figura tão importante e não se emocionar. E viajar, a vivência em outros lugares, ver novas arquiteturas, formas de se relacionar, outros espaços, a luz do sol… Tudo isso também me inspira muito.

Dá para perceber que sua relação com a moda é forte. O que ela representa para você?
Eu sou uma figura romântica nos conceitos. O romance com a moda está também nesse lugar da arte, de comportamento. A primeira casa, primeiro invólucro do ser humano é a roupa que ele veste. Depois do ambiente, depois o espaço arquitetônico, depois a cidade, o país… Numa escada de contato com o ser humano, acredito que a moda tenha esse lugar de abrigar o ser humano e oferecer a ele comportamentos estéticos e sociais de posicionamento. Ela é mais uma forma de expressão.

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Foto: arquivo pessoal

Olhando seu Instagram, vimos que você é rodeada por objetos que remetem à natureza.
Moro no meio da floresta, um apartamento que parece uma casa. Eu acordo e vejo três tipos de macaco. Um com uma mão amarela, um rostinho branco e uma cauda gigantesca superfashion. Ele pega o rabinho e bota em volta do pescoço como se fosse uma echarpe. (risos). Tem o macaco prego, inteligentíssimo, besouros, borboletas… Eu coleciono numa cristaleira insetos exóticos que encontro mortos na minha casa. Uns 50. Fui criada em meio à natureza, é vital, é saúde. Minha casa tem uma quantidade plantas incomum para um apartamento. A natureza humaniza o espaço, traz a gente para um lugar mais ancestral.

Marina Ribas | Arquitetura Emocional

Fotos: André Nazareth

Quais são os 5 objetos mais afetivos do décor da sua casa?
Minhas instalações, as camas que eu e meu marido usamos no lugar dos sofás, a coleção de cadeiras de design, os objetos que vieram de herança da minha vó e os objetos da cozinha que eram da mãe do meu marido, como o caderninho de anotação e as panelas.

Vimos também que seu marido tem um belo piano. Qual música que ele toca mais te emociona?
Eu e me marido compusemos uma música juntos para o convite do nosso casamento. Nós dois nos emocionamos. O convite é um vídeo que com nossos nomes aparecendo na tinta dourada, botamos a música no vídeo e mandamos para as pessoas. Era muito diferente. Meu marido também é designer, nossa casa é pura natureza e arte, ela respeita nossa natureza criativa. Chamamos de “Casa da Floresta”.

Quais características da sua personalidade mais te ajudam na sua profissão?
Sensibilidade, criatividade, olhar humanista, flexibilidade, intuição e amorosidade.