O que é Antropologia da Moda? O que leva uma pessoa a adquirir determinada peça? De que forma a sociedade e a individualidade influenciam nessa decisão? Hoje é dia de ter uma conversa afinada com a doutora em Antropologia Social Hilaine Yaccoub, que esclarece essas questões e reflete acerca do papel da moda na nossa sociedade.

Consultora independente, pesquisadora de Antropologia do Consumo e palestrante, ela atua há mais de 15 anos no mercado, explorando sua habilidade especial em lidar com mercados, negócios e pessoas. “Sou uma entendedora de gente. Procuro saber o porquê das coisas serem como são, as razões das pessoas, como elas pensam, como expressam sua historicidade através das escolhas de consumo e gosto”, explica a antropóloga, que considera a moda uma forma lúdica de expressão.

Confira a entrevista:

O que é Antropologia da Moda? Como ela nos ajuda a entender a sociedade contemporânea?
A moda é uma construção cultural, exprime identidades, momentos históricos, estratificação social e não há sociedade que não haja estratificação. Através do que se veste, emitimos mensagens, a moda é o resultado de uma tensão paradoxal entre o desejo de imitar os outros e o de nos distinguir. Como é um fenômeno intrinsecamente imerso dentro de uma expressão de cultura, a Antropologia da Moda é uma área que visa entender os significados utilitários e simbólicos acerca dos ornamentos, das expressões e dos signos de um tempo, ou de um determinado grupo. Assim nos ajuda a entender dinâmicas socioculturais, protocolos de ação e expressões de signos de poder, beleza, etc.

Qual é a importância dela na Antropologia do Consumo?
O consumo está presente em todas as sociedades humanas, a economia e o próprio consumo não se destacam porque encontram-se enraizados na vida social, e suas práticas não se distinguem ou se separam das demais práticas sociais. Ou seja, o consumo está naturalizado nas nossas ações cotidianas, consumimos o tempo inteiro sem perceber. As pessoas nunca consomem somente coisas e suas respectivas funções utilitárias. Elas consomem os sistemas classificatórios, as constelações de valores e de significados nas quais os bens estão incluídos e imersos. Faz parte de um dos recursos que temos para nos distinguir, nos incluir socialmente. As pessoas não consomem roupas, elas consomem o que a roupa significa em dado contexto.

Qual é o papel da moda na formação da identidade das pessoas e, consequentemente, da sociedade?
A moda é uma linguagem, é uma expressão no espaço-tempo. Através da moda construímos máscaras sociais, nos vestimos de mensagens. Uma camiseta com determinada frase é um outdoor do que se acredita. O uso de um jeans em um evento formal também traz um significado. A moda é a forma lúdica dos indivíduos se expressarem, destacando-se ou simplesmente obedecendo protocolos de ação. Sempre pensamos em indumentárias específicas para certas ocasiões, ou simplesmente o fato de achar que não se pensa e “usar qualquer coisa” já é uma escolha. Moda reflete nosso gosto, que é formado por uma identidade social influenciada pelo nosso repertório e referências para apreciação das diversas formas de expressão artísticas.

A moda é uma maneira de se diferenciar ou se sentir parte de um todo?
As duas coisas. Como disse antes, a moda é uma forma de distinção e inclusão social. Em determinado grupo se pode ousar e de repente usar acessórios que chamem atenção e seja percebido como alguém supercool e antenado, e para outro grupo que está habituado a investir em acessórios simplesmente não se destacar por isso, mas sentir-se parte daquele conjunto de indivíduos que partilham dos mesmos gostos ou afinidades para adereços.

Se você pudesse escolher 5 palavras/termos para relacionar com a moda, quais seriam?
Identidade, cultura, mensagem, flexibilidade, escolha.

A forma que uma pessoa se veste revela o que sobre ela?
Somos expressão daquilo que escolhemos. Temos à mão um shopping center de estilos, e podemos ainda assim misturar, customizar, diversificar os usos das coisas. Cores, tecido, estilo da tatuagem, corte de cabelo, modos de usar acessórios e roupas revelam muita coisa sobre quem as usa, quem escolheu e não é sobre compra, mas sobre a arte de juntar as peças e combinar itens para enviar uma mensagem. Mesmo que alguém diga que não foi intencional, não importa, vivemos em  sociedade, e em todas as sociedades, das mais tradicionais como tribos remotas às tribos urbanas, revelamos o nosso estado através de moda. O que muda é a forma de como se expressar.

Por que muitas pessoas criam uma relação de afeto com roupas?
Porque elas fazem parte de memórias de uso, ou de um desejo muito postergado de compra. Certa vez depois de uma palestra sobre antropologia da moda, uma pessoa me procurou para relatar uma história. Ela era uma jovem estudante que iniciou sua vida profissional como auxiliar de escritório num renomado escritório de advocacia. Ela se vestia de forma simples, não tinha muito recursos para investir na sua aparência, mas percebia como as advogadas montavam seus looks, cores, modelagens, e uma coisa chamou muito atenção foi a marca de sapatos que costumam usar. Aquela marca ficou na cabeça daquela jovem por muito tempo até que ela conseguiu comprar uma sapatilha da marca. Para ela foi tão importante que parecia que estava comprando uma joia (palavras dela). Ela construiu uma relação de afeto, na verdade a sapatilha era um objetificação de sucesso, um troféu de que ela poderia conseguir tudo que quisesse através do esforço e trabalho.

Além disso, o que usamos nos remete a uma história que vivemos, a primeira saída com o namorado, ou o vestido de casamento, ou o que usamos na nossa formatura, atribuímos significados simbólicos porque os objetos expressam sentimentos, na verdade eles intermeiam afetos, relações sociais, etc.

Como as redes sociais vêm revolucionando a relação dos consumidores com seus objetos de desejo?
As redes sociais viraram uma grande vitrine de consumo e desapego. Como estamos num campo imagético, conseguimos passear por vários “corredores” de shopping sem sair de casa, na palma da mão. Vemos pessoas que admiramos usarem determinado corte de cabelo ou peça de vestuário. Já nos sentimos instigados a farejar de onde é, quanto custa, se é possível comprar pela internet. Ao mesmo tempo há uma tendência muito forte em vender ou comprar itens usados, as fotos nos garantem bom estado das peças e seguimos nessa busca por barganhas. Nos tornamos cães farejadores de trufas, os mais treinados encontrarão as riquezas que existem na web com maior facilidade.

Durante a vida, podemos mudar de estilo. Até que ponto essa transformação é um reflexo social e até que ponto é uma mudança de comportamento que traduz as diferentes fases da vida?
Possuímos códigos de conduta em todos os contextos de vida. Esses códigos mudam conforme o tempo, mas mesmo que alterados são evidenciados e cobrados socialmente. Se temos determinada idade para iniciar a vida profissional, temos necessariamente que nos vestirmos para tal ocasião. A não ser que nossa profissão nos dê maior elasticidade de escolhas do que usar. Ao me transformar em consultora e falar diretamente para CEOs de grandes companhias, eu tive que mudar minha maneira de me vestir. Aprendi a investir em uma aparência que condiz com minha identidade pública, a que eu de fato gostaria de transmitir. Acredito que um personal stylist ou um consultor de estilo é de grande relevância na vida de qualquer pessoa quando há dúvidas sobre qual a imagem que se transmite. Mudamos de cargo, faixa etária, corpo, nos tornamos mães. Como fazer para transmitir a imagem da nossa melhor versão? Somos avaliados, classificados, medidos, qualificados a todo instante. Um esmalte descascado para um determinado grupo pode parece supercool, mas para outro um sinal de descaso, desleixo, etc.

E a sua relação com a moda, como é?
Depois de mudar meu guarda-roupa quando saí do mundo universitário/acadêmico para ser uma consultora, aprendi que poderia investir em peças minimalistas, em slow fashion, em tecidos que tenham boa duração e caimento. Eu amo moda, adoro acessórios e gosto muito de produtores locais. Me considero extremamente perspicaz em encontrar peças que se adequem ao meu corpo, eu acredito em uma moda que me sirva, e não o contrário. No armário tenho peças que vão desde o 44 ao 46, justamente porque oscilo de peso com frequência, dependendo do humor, do período que esteja, se trabalho mais na rua emagreço, se trabalho mais de casa engordo. Pode parecer um verdadeiro terror, mas com o acervo que montei vou adequando as peças ao meu estado.

Como você descreve seu estilo? Como ele se relaciona e reflete com seu estilo de vida?
Eu sou uma antropóloga bem-vestida, com uma base minimalista e uma paleta neutra, tecidos de caimento que me dão fluidez e prazer ao toque, preferencialmente os que não amassam, pois viajo bastante e preciso de conforto e elegância. Os colares de miçangas ficaram no passado, mas as sementes continuam fazendo parte do meu acervo, hoje são biojoias que contam histórias de viagens ou de produtores locais que amo. Os sapatos, em sua maioria, também são feitos à mão, primam pela qualidade e durabilidade. Eu não me importo de pagar caro por saber a procedência, conforto e beleza de determinado item.