Especial Outubro Rosa

Às vezes é um filme que traz uma mensagem do bem, em outras são iniciativas bacanas que nos ajudam a superar momentos difíceis. Quando eles surgem, nada como buscar informação, além de cuidar do corpo e da mente, afinal os dois são indissociáveis e trabalham juntos para nosso bem-estar.

Manter a positividade é como um remédio, defende a psico-oncologista Jéssica de Riba, responsável pelo Grupo Conviver, projeto de apoio psicológico da São Carlos Saúde Oncológica. Hoje conversamos com ela, que dá conselhos para enfrentar o câncer com otimismo e troca de experiências.

Confira a entrevista:

Qual é a importância do acompanhamento psicológico durante o tratamento?
Tão importante quanto a busca por novos medicamentos e tecnologias de enfrentamento ao câncer é encontrar maneiras de ajudar o paciente a lidar com o diagnóstico. Ainda que parte dos tumores malignos tenham bons prognósticos, o câncer tem um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, por isso a importância do acompanhamento psicológico desde o diagnóstico. Em alguns momentos, o simples fato de oferecer à pessoa um espaço onde ela possa falar de seus sentimentos e expectativas frente ao câncer pode fazer com que novos significados sejam dados à vida. O papel do psicólogo consiste em trabalhar suas vivências e possibilitar ao paciente a compreensão do seu processo de vida e de adoecimento, além do enfrentamento do diagnóstico, do prognóstico e da construção de um espaço para resgatar seu valor enquanto ser humano. Esse é o trabalho que fazemos com os pacientes do Grupo Conviver na São Carlos.

Como lidar com o diagnóstico? É comum a oscilação entre momentos de negação e otimismo?
Não existe uma fórmula mágica para lidar com o diagnóstico, a oscilação de humor é comum e, em sua maioria, as pessoas precisam de algum tempo para se ajustar ao fato de que estão com câncer. Precisam de tempo para pensar no que é mais importante em suas vidas e aceitar o apoio de seus familiares e amigos. Para muitos, este é um momento emocionalmente difícil e por isso sentimentos como raiva, medo, choque e descrença podem ser comuns.

A feminilidade de muitas mulheres fica afetada durante e após o tratamento. Quais são as dicas que você dá para elas nesse momento?
Se enxergar em uma nova imagem corporal, aprender e aceitar seu corpo durante e após o tratamento do câncer de mama é uma jornada pessoal e diferente para cada mulher. A questão da feminilidade pode ser bastante auxiliada com a busca de informações e também com a busca de grupos de apoio mútuo, que enriquecem as trocas de experiências e vivências.
Procurar informação e entender que sexualidade vai muito além do próprio ato sexual é importante, assim como o apoio do (a) companheiro (a) e compreensão de que cada um tem seu próprio tempo.

Quais outras dicas você dá para quem enfrenta o tratamento?
A experiência do câncer é única para cada um dos pacientes. O momento mais difícil costuma ser o pós-diagnóstico, assim como durante as diferentes etapas do tratamento – cirurgia, quimioterapia, radioterapia e possíveis recaídas. Pesquisas realizadas nos últimos anos concluíram que pacientes otimistas, em geral, têm resultados mais positivos no tratamento oncológico. O emocional gera uma alteração negativa de hormônios que interfere até no tratamento. Pacientes emocionalmente bem enfrentam a doença de forma mais tranquila.

1. Não tenha medo da informação. É importante manter-se informado sobre o andamento do seu tratamento. Isso ajuda a compreender como será o caminho para enfrentar o câncer.

2. Busque apoio nas pessoas que você ama.

3. Procure apoio também em pessoas que passam por situações parecidas.

4. Esqueça as estatísticas, resista à tentação do “Dr. Google” e peça informações ao seu médico, ele melhor que ninguém conhece seu caso.

5. Não pare sua vida por causa do câncer, manter a normalidade é fundamental para a saúde mental.

6. Muitas pesquisas também apontam que a meditação mindfulness, por exemplo, ajuda no tratamento ao reduzir os hormônios do estresse e aumentar a sensação de bem-estar, além de ajudar a regular o sistema imunológico. Fé também traz benefícios similares.

Você indica que as pacientes continuem a rotina durante o tratamento? Ou é importante dar uma pausa?
Manter a normalidade é importante para a saúde mental quando nos deparamos com um diagnóstico de câncer. Ocupar a cabeça com problemas que vão além do consultório médico faz toda a diferença no equilíbrio emocional.

Quais dicas você dá para familiares e amigos de quem enfrenta o câncer de mama?
Sabemos que o diagnostico de câncer abrange não só o paciente, mexe com toda estrutura social e familiar. Normalmente, orientamos que os familiares:
– Mantenham-se informados sobre o que está acontecendo;
– Cuidem também da própria saúde, é muito comum que no cuidando do outro o familiar se esqueça dele;
– Cuidem dos seus sentimentos e, se necessário, procure ajuda profissional;
– Consigam dar carinho e entendam que a perspectiva do paciente foi modificada (saúde/doença), assim como o timing;
– Ofereça ajuda, saiba ouvir e principalmente se permita chorar e permita o outro chorar. É importante saber que altos e baixos emocionais são comuns e que tanto o familiar quanto o paciente podem ter vontade e devem chorar.

Especial Outubro Rosa

Depois da nutricionista Patrícia Augstroze dar dicas de alimentação para prevenir o câncer de mama e de contarmos aqui sobre um documentário que será lançado sobre o assunto, hoje conversamos com a Dra. Patrícia Alves, médica oncologista da São Carlos Saúde Oncológica, hospital especializado no tratamento oncológico completo.

Aqui ela dá dicas preciosas para o cuidado contra a doença. Afinal, a informação é nossa maior aliada contra o câncer de mama.

Quais produtos evitar para se prevenir?
Muito se diz acerca da associação entre o uso de sutiã e desodorante com a ocorrência do câncer de mama, mas vale a ressaltar que não houve comprovação científica. Há também questionamentos quanto ao implante da prótese de silicone, porém em estudo realizado anteriormente não foi constatado aumento da incidência nessas mulheres com prótese.

Quais alimentos evitar para se prevenir?
Nunca houve tanta preocupação com a qualidade da alimentação quanto nos últimos tempos. Ter uma dieta equilibrada é uma maneira de prevenir o câncer de mama. Deve-se evitar principalmente o consumo excessivo de carnes vermelhas e gordura saturada (geralmente de origem animal) e não abusar de bebidas alcoólicas.

Quem faz parte do grupo de risco?

  • As mulheres são pelo menos 100 vezes mais suscetíveis ao câncer de mama do que os homens, mas é possível que este tipo de câncer se desenvolva também entre eles;
  • Apesar de ser mais comum nas mulheres a partir dos 30 anos, nos últimos anos a incidência do câncer de mama em jovens tem crescido. Assim, quanto maior a idade, maior o risco;
  • A obesidade é um fator que aumenta o risco, principalmente após a menopausa;
  • Mulheres que não tiveram filhos e não amamentaram ou com primeira gravidez tardia;
  • Mutações genéticas;
  • Reposição hormonal em mulheres que já tiveram câncer de mama ou com histórico familiar;
  • Exposição à radioterapia prévia.

Esse grupo deve tomar precauções especiais?
Sim, é importante manter consultas periódicas com o mastologista e realizar os exames de rastreamento.

Qual frequência considera ideal para fazer exame?
A recomendação médica no Brasil é que a mamografia seja realizada anualmente a partir dos 40 anos, para auxiliar o diagnóstico precoce do câncer de mama. Caso haja algum fator de risco, deve-se iniciar mais precocemente ou reduzir este intervalo, sempre com orientação médica.

Qual o período do mês é mais indicado para realizar o autoexame?
O autoexame é, na verdade, apenas o autoconhecimento das mamas; é importante frisar que não pode ser utilizado como exame de rastreamento para o câncer de mama. Ele pode ser feito 1 semana após a menstruação e, em mulheres que não menstruam, sempre na mesma data do mês. Assim, as mulheres devem ficar alertas a qualquer alteração nas mamas e não deixar de fazer o acompanhamento com o ginecologista e os exames de rotina.

A mamografia são os únicos exames que detectam?
O autoexame é apenas uma forma da mulher tentar identificar alguma alteração nas mamas. Ele não pode ser utilizado como exame de rastreamento. O principal exame para detecção é a mamografia e, em alguns casos, são solicitados exames complementares como ultrassonografia e ressonância das mamas.

Dicas de bem-estar para quem enfrenta o câncer de mama.
Manter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos com regularidade e desenvolver atividades que lhe causem bem-estar e tranquilidade são algumas dicas para quem está em tratamento de câncer. Manter uma rede de apoio sócio-familiar também é importante para que a paciente se sinta confiante em encarar este desafio de frente. A São Carlos Saúde Oncológica conta com uma equipe multidisciplinar que atua nas áreas de Serviço Social, Psico-oncologia, Nutrição, Fisioterapia, Fonoaudiologia, entre outros serviços. Tudo para oferecer todo o suporte que nossos pacientes necessitam durante o tratamento.

A mama deve ser a única área de preocupação das mulheres?
A mama, normalmente, é o local primário deste tipo de câncer. Em alguns casos, o câncer pode também acometer as axilas e enviar metástase para outros órgãos, podendo espalhar a doença para diversas áreas do corpo. Assim, é importante que a mulher fique atenta a qualquer sinal de alteração na região das mamas.

Abaixo a monotonia e o tédio: esse é o lema da autêntica Luciana Novis na hora de se vestir, momento mais prazeroso do dia para a stylist, que enxerga na moda uma forma de deixar a vida mais alegre e divertida. Com uma infinita cartela cromática e combinações inusitadas, ela mostra toda a sua irreverência em visuais para lá de criativos.

Como Luciana aprendeu a arte da composição a serviço da harmonia? A avó, sem dúvida, foi uma grande fonte de inspiração, além da musa multicolorida Iris Apfel e da excêntrica Diana Vreeland. Hoje ela passa seu olhar apurado para a filhota Antonia, de 8 anos, que apesar da idade não é boba nem nada quando o assunto é originalidade na moda.

Mãe também da recém-nascida Felipa, a stylist conta aqui como foi a aventura de se vestir durante a gravidez e revela quais são seus artifícios, além dos looks, para deixar os dias mais prazerosos.

E fica aqui a dica dessa talentosa criativa: moda é autoconhecimento, então seja você mesma e divirta-se!

Para começar, conta um pouco sobre sua trajetória profissional.
Minha trajetória profissional é um pot-pourri de experiências (risos). Comecei cursando medicina por causa da minha paixão por ciências, por cuidar e estar em contato com as pessoas. Foram 4 anos de faculdade até o momento em que comecei a me sentir fragilizada demais com o sofrimento das doenças e perceber que me dava mais prazer criar looks para o plantão do que estudar as patologias (risos). Foi então que percebi que era hora de mudar. Sem avisar nada aos meus pais, tranquei a faculdade e imediatamente ingressei no curso de jornalismo, me especializando em moda com o curso da Iesa Rodrigues. Assim atendi às 3 paixões que sempre foram presentes na minha vida: ler, escrever e brincar de me vestir. A partir daí, nunca mais parei. Fundei com minha turma um jornal mensal, o “Moda Agora”, para o qual cobríamos as semanas de moda e os principais eventos e novidades da área, fiz freelas de figurino, trabalhei em assessoria de imprensa e no marketing de marcas de moda. Depois de 13 anos, me senti completa para seguir com meu próprio negócio. Há 3 anos, escolhi meu hobby como profissão, fiz alguns trabalhos para revista de moda e comecei a prestar consultoria criativa para marcas.

Como surgiu seu interesse pela moda?
Sempre fui bastante conectada com moda e estética, desde muito criança. Quando era pequena, minha avó tinha em casa um atelier de roupas feitas sob medida. Adorava observá-la ajudando as clientes, desenhando as roupas. Aproveitava os restos de retalhos para vestir minhas bonecas. Minha avó sempre foi e é até hoje uma mulher muito elegante e inspiradora.

Qual é o papel da moda na sua vida e no mundo?
Adoro uma frase que diz que “a moda é a mais inebriante libertação da futilidade que existe”. Moda é arte, uma forma de deixar a vida mais alegre. Quando você se sente bem com uma roupa, se sente bem com você mesma, se relaciona com o mundo e com as pessoas de maneira mais leve e saudável. Sem dúvida o ritual diário de me vestir é uma das ações mais prazerosas do meu dia inteiro.

E no mundo?
Além da sua grande importância em contar a história do comportamento das civilizações ao longo dos anos, é também de movimentar a economia e gerar empregos. E atualmente as pessoas mudaram a forma de consumir e estão cada vez mais conscientes dos impactos do consumismo em suas vidas e no planeta.

Qual é o maior desafio na sua profissão de stylist?
Acredito que para produzir imagens fortes e de impacto, o styling deve ser pensado para além da roupa em si. Tem que haver uma sinergia entre a luz, o cenário, o acting e a roupa. Essa é a combinação de fatores que faz a coisa acontecer. É fundamental estar sempre conectado e saber se reinventar. Um bom trabalho para mim é aquele que consegue produzir uma imagem forte e impactante potencializando as qualidades do cliente e trazendo o que ele tem de melhor.

Qual dica você dá para uma pessoa que quer trabalhar com moda?
Tenha muito, mas muito amor pelo ofício. Muitas vezes as pessoas têm uma ideia glamourizada da moda, que de glamour não tem nada. É uma profissão difícil, exige talento, muita dedicação e persistência.

Como foi a aventura de se vestir durante a gravidez? Tem dicas?
Foi superbacana porque pude aproveitar meu guarda-roupa e com um styling esperto adaptá-lo às várias fases da gravidez sem ter que comprar uma peça nova. Só investi mesmo em acessórios que a gente não pega bode e acaba usando depois.

Sua filha já é uma pequena estilosa. Vocês escolhem as roupas dela juntas?
A Antonia tem uma personalidade forte e sempre gostou da brincadeira de se vestir, isso foi uma coisa que uniu a gente. Hoje em dia ela escolhe as próprias roupas, vira e mexe inventa uma forma nova de usar alguma peça, outro dia fez uma bolsa de papel (risos). Mas a gente sempre troca ideia. E eu adoro pedir a opinião dela. Apesar de pequena, ela tem um olhar superesperto.

Quais são suas principais inspirações estéticas?
São tantas… Diana Vreeland, Iris Apfel e a minha avó certamente são mulheres inspiradoras. A referência estética está dentro da gente, ter um olhar treinado e ficar sempre atento ao que está acontecendo transforma os pequenos detalhes em fonte de inspiração.

Estilo: você tem ou não tem ou você pode encontrar o seu?
Estilo tem a ver com autoconhecimento, em você conhecer seu corpo e sua essência, saber o que te veste bem e o que traduz sua personalidade. Algumas pessoas seguem “modas” e às vezes forçam a barra para usar algo que não sintoniza com elas. Não é verdadeiro, não funciona. É totalmente possível encontrar o próprio estilo, basta querer se conhecer profundamente e não seguir modismos. Se vestir é uma forma de se comunicar com o mundo e quando você conhece tanto seu corpo quanto sua essência, essa comunicação flui de forma harmônica, você emite para o mundo o que você é de verdade.

Falando nisso, você sempre teve esse estilo autêntico? Como foi esse processo?Sempre tive uma coisa muito instintiva de gostar de me vestir, de combinar cores, formas e estampas, de criar maneiras novas de usar as roupas. Quando criança, usava bota ortopédica e a incorporava ao look com a maior naturalidade, isso nunca fez com que eu perdesse a minha autenticidade. Mas “peguei um bode” de botas de uma maneira geral (risos). Passei por várias fases também na adolescência, mas sempre tive muito a minha marca registrada. Com o tempo o estilo vai se aprimorando, amadurecendo, sem perder a sua assinatura.

Tem dias que você acorda básica?
Nunca aconteceu! (Risos). Me vestir é um prazer, um hobby que precisa ser leve e divertido, ainda que esteja de jeans e t-shirt branca, tem sempre que ter um acessório ou algum truque de styling para “perturbar” a monotonia de um look básico. A única coisa que prezo acima de tudo é que o caos criativo seja harmônico. A combinação de coisas que a princípio não se combinam tem que fazer sentido no final.

O que mais você faz para deixar a vida mais divertida?
Tento sempre fazer com que a minha rotina seja prazerosa mesmo com as chatices que fazem parte do dia a dia. E exercito bastante não me levar tão a sério. Rir de mim mesma e aceitar meus defeitos faz tudo ficar mais fácil.

Onde a imagem encontra a linguagem

Foto: Pedro Garcia (Cartiê Bressão)

Ainda criança, Maria Lago cresceu entre os 10 mil livros do pai que compunham um acervo digno de biblioteca nenhuma botar defeito. Assim nasceu um interesse nato não só pela literatura, mas também pelo design das obras.

Maria sempre esteve envolvida em todas as etapas do processo editorial, tendo experimentado, inclusive, a prática de encadernação artesanal. Originalmente FAMILIA foi sua marca de papelaria por encomenda, cujas as peças únicas eram desenhadas e executadas à mão pela designer. Hoje, FAMILIA é o selo de seu estúdio criativo, especializado em narrativas visuais e da recém lançada editora de edições limitadas de fotolivros e livros de artista.

A paixão pela linguagem ganha novos contornos na vivência de Maria, que incorpora a estética em tudo que faz. No ano passado, lançou Onde o Rio encontra o mar, com trabalhos de 9 fotógrafos que encararam o desafio de retratar o diálogo entre a praia e a cidade (maravilhosa) a partir de um olhar nada óbvio.

Hoje, a designer e diretora de arte também se lança na fotografia. Abraça toda a liberdade que sente morando em NY, adiciona pitadas de tempero carioca e espanhola – Maria já morou em Madri – para fotografar sem amarras, de maneira crua, original e espontânea. Com ela, a arte é menos tendência e mais essência.

Confira a entrevista:

Você tem uma forte relação com livros, tanto forma quanto conteúdo. O que o encontro entre imagem e linguagem representa para você?
O livro foi umas das formas que encontrei de contar histórias através de uma linguagem visual e de um suporte que durem no tempo. Minha cabeça pensa o tempo inteiro em como contar coisas desde um ponto de vista diferente, para que mesmo as mais banais sejam vistas de forma diferente e ao mesmo tempo fiquem registradas na memória. Eu não sigo tendências, me interessa mais pensar em como traduzir conteúdos que toquem as pessoas. Livro envelhece bem, diferentemente da maioria dos suportes digitais. Ganha mais vida com o tempo, é pessoal.

Você cresceu rodeada por livros. Conta um pouco sobre sua relação com eles.
Sim, o pessoal na minha família é meio exagerado (risos). Tanto a família da minha mãe como a do meu pai tem uma base intelectual muito forte. História, arte, política e cultura fazem parte da minha educação. Meus pais vêm de famílias internacionais, que sempre viajaram muito e se criaram no mundo, absorvendo diversidade e cultura geral. Meu pai tem mais de 10 mil livros em casa, sobre tudo o que você possa imaginar, entre eles uma coleção respeitável de livros raros antigos (incluindo edições do século 16, encadernados em pergaminho e couro). Eu estou construindo minha coleção com outras características, mais focada em fotolivros e livros de artista contemporâneos, edições limitadas. Não passo ainda dos 1.100. Meus tios também colecionam, um deles é, inclusive, editor. Eu cresci entre livros, apreciando e respeitando-os como forma e conteúdo. A biblioteca é o meu maior patrimônio material, junto com minha coleção de sapatos (risos).

Imagens: F0otolivro autoral – Passado, Presente, Futuro

Quais são suas principais memórias afetivas em que os livros estão presentes?
Tem uma historinha que conto de vez em quando: aos 2 anos e meio, acordei de manhã cedo, fui ao corredor da casa em que vivia com meus pais e comecei a mexer nos livros na prateleira mais baixa, a única que alcançava. Meu pai acordou em seguida e me pegou no flagra, me deu uma bronquinha e um tapa inofensivo na mão dizendo: “ai, ai, ai, com livro não se brinca.” Aprendi. Lembro dos meus pais lendo o tempo todo e eu sabendo respeitar isso. Da gente sempre puxar um livro da estante buscando referência durante uma conversa. Os meus livros de infância que tenho até hoje e considero grandes marcos do design editorial infantil são Flicts, do Ziraldo, e Onde vivem os monstros (Where the wild things are) do Maurice Sendak. Também sempre gostei muito de um livro que herdei da minha mãe, Eloïse, sobre uma menina que morava no Hotel Plaza em NY, hoje, curiosamente, cidade que escolhi como lar.

Como é o processo de criação de design editorial?
Sempre começo pensando na história que vai ser contada, como e por quê. Qual seria o formato adequado para isso e quais recursos visuais se adequam a essa narrativa. Eu costumo participar do processo inteiro da geração de um livro, desde a ideia original à criação de uma equipe, quando necessário, e produção/impressão final que resultam no objeto finalizado. Ou seja, o design é um ferramenta, parte do processo, mas minha cabeça funciona de forma mais ampla, com olhar de edição e direção de arte.

Como a encadernação artesanal entrou na sua vida?
Eu sempre tive necessidade de trabalhar com as mãos, minha formação é mais artística do que acadêmica, fiz anos de aulas no Parque Lage e muitas vezes tenho necessidade de envolver corpo no processo criativo. Quando me mudei para Madri, em 2004, estava começando minha primeira formação teórica em design (Master em Design Editorial no Instituto Europeo di Design de Madri). Senti falta do trabalho manual, uma amiga do curso me sugeriu experimentar umas aulas num ateliê de encadernação artesanal perto da Escola. Amei. Me identifiquei imediatamente, pois de alguma forma me sentia entrando no corpo de livro, entendendo todos os seus detalhes e variações de comportamento do objeto, como se fosse um processo cirúrgico em que entrava em contato com as entranhas do objeto livro. Por alguns anos desenvolvi essa paixão, o que acabou resultando da criação da minha marca FAMILIA, de papelaria por encomenda (peças únicas numeradas). Eu criava, desenhava e executava cada peça. Foi uma fase muito criativa, montei o ateliê em casa.

Onde o Rio encontra o mar aborda o estilo de vida carioca. O que ele traz de diferente dos outros livros de fotografia do Rio?
O livro é um olhar contemporâneo sobre o encontro da cidade com a praia, característica tão particular do estilo de vida carioca. Como vivemos a vida urbana emaranhada num grande balneário e vice-versa. Os rituais e costumes da vida carioca vêm de outros tempos, mas continuam se repetindo com algumas adaptações de acordo com as transformações urbanas sofridas pela cidade. Minha ideia era mostrar o Rio de dentro, o Rio nosso, cotidiano e intimista, com o olhar de fotógrafos cariocas que desenvolvem um trabalho, na minha opinião, bastante fresco e contemporâneo sobre o Rio de ontem e hoje. Quando convidei os fotógrafos para participar do projeto, uma das principais abordagens foi como mostrar esse diálogo da cidade com a praia através de imagens que não costumamos ver em livros sobre o Rio. Todos os colaboradores do livro, inclusive eu e a Bel De Luca (que escreveu o texto de introdução), tivemos experiências fora do Brasil e voltamos ao Rio adquirindo uma nova sensibilidade e ampliando o olhar sobre como percebemos nossa cidade e seus detalhes que, por fazerem parte de um cotidiano tão intrínseco, não costumam ser retratados.

O que do lifestyle carioca há em você? Incorporou o tempero espanhol e o nova-iorquino no seu jeito de viver? Como se dá essa mistura?
Eu sou uma carioca do mundo, com temperos de todas as partes. Mas sou carioca. Sinto uma falta enorme de ter a praia ao lado, de sair com dinheiro contado para o coco, a canga e o chinelo no pé. Da espontaneidade do dia, de como as coisas rolam sem planejar, de como posso sair de casa para o mergulho e voltar para casa depois da festa as 2 da manhã sem ter nem pensado que começaria e acabaria o dia com o mesmo biquíni. Do estilo de vida espanhol posso dizer que incorporei facilmente os horários tardios, sou bicho da noite, funciono bem na segunda metade do dia, tanto para criar como para me divertir. Gosto de comer bem e beber bem. NY é minha casa, onde sou o melhor de mim, encontro a liberdade de ser e a abertura para a diversidade que não encontrei no Rio e em Madri com a mesma fluidez. NY me nutre de arte e cultura, elementos fundamentais para a minha vida em geral, já que hoje não separo trabalho de vida. Criação e diversão caminham juntos. Aqui comecei a fotografar, me arrisco mais, me exijo menos e acabo trabalhando com mais qualidade graças a essa sensação de liberdade. Nessa cidade também encontrei muitas pessoas com quem tenho trocas criativas incríveis.

Propomos um desafio. Se pudesse escolher apenas 5 livros para levar com você onde quer que fosse, quais seriam?
– Um deles seria o da infância, Where the wild things go – por ser um dos meus primeiros livros e ter as ilustrações mais fabulosas. Gosto muito de livros infantis bem feitos e bem ilustrados.

– Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Marques.

– Qualquer edição da poesia de Carlos Drummond de Andrade.

– Um catálogo raro de tipografia da ATF (American Type Founders) de 1923 – minha bíblia tipográfica. Iconografia do Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, do Carybé – obra-prima entre os livros de artista brasileiros, que meu padrinho tão carinhosamente me presenteou.

– Sobre arte e estética, são tantos que prefiro guardar na minha cabeça as referências mais marcantes. Prefiro um caderno de notas em branco para que eu possa preencher a lápis.

Fotos: Maria Lago

No seu Instagram, o cotidiano é capturado de maneira crua e pouco óbvia. Você concorda? Como busca impactar as pessoas através da fotografia?
Eu ainda sou meio desastre usando Instagram (risos). Minha cabeça é mais old school. Concordo com o “pouco óbvio” e confesso que não sei usar direito, ainda não incorporei a espontaneidade da ferramenta. Fico no meio do caminho entre o pensado e o não pensado. Não costumo usar filtro, no máximo dou uma corrigida na luz/tom por vício de designer/editora de fotografia. Não são fotos lindas. Na fotografia em filme acho que tenho uma linguagem mais própria, apesar de ainda estar engatinhando na exploração desse campo. Mas por ter olho de editora e diretora de arte, facilita. Com as mídias sociais, acho que ainda tenho mais medo de errar, por haver uma exposição tão excessiva e pouco filtrada.

Fotos: Maria Lago

Quais designers e/ou fotógrafos mais te inspiram no momento?
Eu não sigo muito ninguém, sou pouco ligada em tendências. Minha inspiração vem da vida real, do que vejo na rua mesmo. Cores, texturas, moda, formas, pessoas, coisas, comida, luz, sensações. Minhas referências artísticas são fotógrafos como William Eggleston e Diane Arbus, que sempre me inspiram. Nas origens do design, Bauhaus e construtivismo russo, design editorial holandês, são muito atemporais e geniais em tipografia. Gosto de perceber risco e espontaneidade nas coisas. Sentir que tem alma e provocam sensações. Estive no Japão esse ano, então arte, moda, arquitetura e fotografia japoneses tem sido referências fortes no momento. A visita a Naoshima foi um “antes e depois”. Aliás, gastronomia também é grande fonte de inspiração para mim, estou envolvida com alguns projetos nesse campo. O trabalho da fotógrafa espanhola Cristina de Middel, autêntico e embasado, é o que tenho visto de mais original e criativo. Acho muito difícil criar algo original em tempos informação visual. Inspiração é muito bom, mas quando de fato há intenção de contar algo novo, ou com um olhar diferente.

Maria Lago

Fotos: Cristina de Middel, Diane Arbus, William Eggleston

Lilian Pacce, mil em uma

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

Lilian Pacce mostra que a moda vai muito além. Tem a ver com cultura, curiosidade, criatividade, expressão, linguagem, conforto, afeto, identidade e originalidade. Ufa! Para uma das jornalistas mais renomadas do mundo fashion, a moda possui mil e uma faces e é, ao mesmo tempo, estar nua. Você pode se expor e comunicar o que quiser através dela.

Não à toa, comunicar é uma paixão de Lilian. Além de entrevistar nomes badalados da moda e mostrar o que há de mais quente nas passarelas, a apresentadora e editora do GNT Fashion escreveu vários livros, entre eles “Biquíni made in Brazil” e “Ecobags – Moda e Meio Ambiente”. Curiosa como boa jornalista, ela tem sede de pesquisa e busca entender muito mais que tendências, mas a essência do comportamento por trás da estética.

E se a moda tem mil faces, Lilian tem mil fases: ela conta que seu estilo muda de acordo com os momentos da vida. Sorte a nossa poder olhar a moda e suas nuances através desse olhar apurado e múltiplo!

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

“Moda é eventualmente estar nu”, você definiu em entrevista, citando Viviane Westwood. Por quê?
Porque tudo é uma escolha, uma expressão. Escolher vestir algo ou não vestir significa muito.

Como você relaciona moda, linguagem e expressão?
A moda é linguagem e expressão – quem não percebe isso, não sabe o que está perdendo. Ela pode ser uma ferramenta e tanto a seu favor, trabalhando para o seu bem-estar.

Como você interpreta o seu estilo? 
Eu não tenho estilo, tenho fases. Admiro quem é fiel a um único estilo a vida inteira, mas sou pisciana, adoro mudar.

Qual dica você dá para quem tem dificuldade de encontrar uma assinatura visual?
Ter uma assinatura visual traz muito conforto e identidade. Para isso, você realmente precisa se conhecer e saber o que você quer comunicar. Claro que é possível quebrar padrões. Steve Jobs mostrou que não é preciso usar terno e gravata para ser um executivo genial. Mas aí já entramos no terreno das exceções. Se você quer ser uma executiva, por exemplo, não adianta ir trabalhar de jogging, isso só vai complicar sua vida.

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

Seu objetivo inicial como jornalista era trabalhar com política e mudar o mundo, mas (felizmente) entrou para a moda. Com ela, como você pode mudar o mundo? A moda é um agente de mudança?
Sim! Esse poder catalizador da moda ficou claro nos anos 60, quando surgiram as camisetas-slogan. Quando fiz a exposição de Ecobags (que virou o livro Ecobags, Moda e Meio Ambiente) senti na prática esse poder catalizador, numa grande conscientização das pessoas para diminuir o uso de sacolas plásticas descartáveis. Ou mesmo agora, com o desafio de #1lookporumasemana, que consiste em escolher uma base (um vestido, uma saia e blusa, uma calça e blusa) e usá-la por pelo menos 5 dias úteis (vale trocar acessórios, fazer sobreposições etc.) Os depoimentos de quem topou o desafio são incríveis (e o desafio continua, viu?). #1lookporumasemana é um ótimo exercício de estilo, de criatividade, de sustentabilidade, na contra-corrente do descartável #lookdodia. Repetir roupa é bacana! Fiz um vídeo no meu canal no Youtube em que falo sobre isso, sobre como é gostoso criar intimidade com a roupa, como a roupa traz memória afetiva.

Qual é a melhor parte de ser apresentadora e editora de um programa de moda?
Ter acesso a pessoas e lugares interessantes e promover esse acesso para a audiência.

A moda é uma ótima ferramenta para entender como as pessoas se relacionam com o corpo. E a história do biquíni tem tudo a ver com isso. Como você avalia a relação das brasileiras com o corpo ao longo tempo?
A evolução do traje de banho em geral e do biquíni em particular é reflexo das conquistas da mulher nos últimos 100 anos. No livro “O biquíni made in Brazil” procuro mostrar bem essa evolução e como a brasileira teve papel fundamental para promover o nosso biquíni mundo afora.

Lilian Pacce

Fotos: site Lilian Pacce

Pingue-pongue:
3 modelos incríveis… Gisele, Dalma Callado, Betty Lago.
3 peças indispensáveis no armário… Calça jeans, calça preta e uma jaqueta.
3 características importantes para trabalhar com moda… Ter muita curiosidade, muita cultura e um pouco de rebeldia.
3 palavras que melhor definem moda… Sonho, necessidade, expressão.
3 maiores aprendizados da sua carreira… Se você realmente quer viver disso para sempre, ande na linha, lute pelo que você acredita e seja o mais ético possível.