A musa dos novos tempos

Roberta Sá

Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Com uma voz potente e ao mesmo tempo doce, Roberta Sá se permite transitar com desenvoltura entre várias vertentes da música brasileira a cada novo projeto. Seu mais recente álbum, Delírio, traz um perfume feminino à cadência do samba, gênero para o qual a cantora traz um fôlego renovado, com elegância e emoção.

Arrastando a sandália – de salto – Roberta Sá invade com charme esse território tão dominado pelos homens, cativando cada vez mais seu lugar na MPB. E suas canções refletem isso, uma mulher que corre atrás, dona do seu destino, que abraça suas imperfeições e busca o equilíbrio.

Delírio aposta em parcerias afinadas que traduzem essa força: em Me Erra, composta por Adriana Calcanhoto, cansa-se de esperar um amor, toma as rédeas e torna-se rainha da própria bateria; em Amanhã é Sábado, escrita por Martinho da Vila, é uma mulher independente, trabalhadora, que comemora a chegada do final de semana para descansar e ganhar um dengo gostoso. No disco, Roberta também faz um novo e delicioso dueto com Chico Buarque.

Hoje, a potiguar se prepara para novos projetos, lançando-se no mundo sempre com muita paixão pelos seus maiores delírios: o palco e a criação. Por aqui, mal podemos esperar!

Roberta Sá

Fotos: Site Roberta Sá/divulgação

Você disse que um dia reparou que seus álbuns preferidos eram “imperfeitos” e por isso incorporou a vertente de pouca edição ao “Delírio”. Na música “Um passo à frente”, você diz canta “minha imperfeição é a voz da vez”. Como você leva isso para o seu dia a dia? Consegue abraçar suas imperfeições com naturalidade?
Acho que a maturidade traz isso. Aos 20 eu não conseguia, aos 36 não só aceito, mas também abraço como parte da minha personalidade. Rir de si, não se levar tão a sério foi importante nesse processo. A imperfeição é uma conquista.

Qual é a sua imperfeição mais charmosa?
Eu sou muito gulosa. Amo comer e não existe a possibilidade de eu abrir mão desse prazer por estética. Claro que cuido da saúde, mas nos dias de hoje, acho um charme uma mulher que come sem culpa.

E qual é o seu maior delírio?
O palco, a criação. Meu trabalho é minha paixão. Tenho essa sorte imensa e sou cada dia mais grata e reconhecida.

Roberta Sá

Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Na música “Amanhã é sábado”, escrita pelo Martinho para você, a mulher toma as rédeas e deixa de ter um lugar passivo. O que interpretar essa canção representa para você?
Tenho observado uma mudança de comportamento e posicionamento nas mulheres que me cercam. Elas são independentes, donas dos seus destinos, mas não abrem mão de um colinho. A música fala disso e eu me identifico cem por cento.

Como você enxerga o lugar da potência feminina no samba? Você vê uma mudança?
Antigamente as mulheres eram as musas, as que faziam o feijão para a roda. Depois viraram as divas, as que descobriam os compositores. Hoje elas contam suas próprias histórias, falam dos seus desejos, medos e questões nas suas composições. Acho que mulher cada vez mais conquista novos espaços sem perder o que já era seu.

Falando em mulher, vimos que uma das suas maiores influências é a Carmen Miranda. O que você mais admira nela?
Tudo! A Carmen foi uma mulher que fez questão de cantar em português quando em Hollywood achavam que no Brasil se falava espanhol. Uma atitude política, consciente, que levou o samba e o país para o mundo inteiro com muito charme, carisma e originalidade. Criou um personagem que até hoje é copiado e lembrado. Um grande mulher à frente do seu tempo.

Roberta Sá

Foto: Daryan Dornelles

“A tristeza é senhora”? Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza?
Sempre! Tenho a sensação que as pessoas hoje têm a ilusão de que se pode ser feliz o tempo inteiro. Isso não é felicidade, é euforia. Ser feliz, para mim, envolve reflexão, recolhimento e um pouco de tristeza. 

O que mais é preciso? O que te inspira a cantar? O amor é senhor?
Acho que a simplicidade da vida. Eu vejo graça em deitar no sofá e ver um filme de cuca fresca. Para mim o amor está no cotidiano. E buscar um dia a dia mais prazeroso é o que me faz cantar melhor.

O que o “Delírio” trouxe de mais enriquecedor para sua carreira?
Encontros, sempre! Com Martinho, com os músicos que estão comigo nessa jornada.

Qual é a maior diferença entre a Roberta como cantora no início da carreira e a Roberta de hoje?
Eu era uma menina sonhadora, hoje sou uma mulher que corre atrás, realiza seus sonhos e administra suas frustrações.

Qual é a sua relação com a moda?
Gosto muito. Uma roupa bonita é capaz de mudar seu astral, elevar sua autoestima. Mas tenho tentado consumir com consciência. Gosto de investir em qualidade.

Qual foi a última música que você escutou antes dessa entrevista?
Sina de Cigarra, do Jackson do Pandeiro.

Para terminar, queremos saber seus próximos planos. Tem algum projeto à vista?
Tenho muitos. Em agosto vou para a Suíça cantar no Auvenier Jazz Festival, depois devo tirar férias para entrar em estúdio ainda este ano.