O blog da Maria Filó

A beleza da simplicidade

 

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Foto: Demian Jacob

O projeto inicial de Bel Lobo não tinha nada a ver com arquitetura, pelo menos aparentemente. Ela estava prestes a estudar psicologia, quando encontrou seu próprio jeito de entender as pessoas. Por meio do visual, Bel até hoje busca captar os desejos e a essência delas, transportando vontades para espaços, formas e cores. Com muito tato, a arquiteta cerca vazios e empresta seu olhar único, repleto de beleza, aos mais diversos ambientes.

Na vida pessoal, ela valoriza a simplicidade. Para Bel, o simples acalma. Também é apaixonada por natureza, plantas, poesia, piano, dança e música. Junto com seus amigos da época de faculdade, criou um coral que participa até hoje. Que ela continue a cantar – e encantar – por todos os cantos.

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Foto: Demian Jacob

Confira a entrevista:

O que não pode faltar nos seus projetos?
Sentido. Preciso seguir vários parâmetros, servir ao que foi pedido, ao desejo do cliente, à necessidade dele. Tem que ter um pouco de humor, bom humor sempre. Tem que ter a ver com o que o cliente quer. Cada um é cada um.

Qual é a sua marca registrada como arquiteta?
Adoraria ter a marca registrada da invisibilidade. Não gosto de ter assinatura, de perceberem que fui eu quem fiz.

Acha que consegue alcançar essa invisibilidade?
Claro que dá para ver que fui eu, mas adoraria que não desse para ver. Tentamos dar caras diferentes. Não dá para usarmos sempre um material da mesma maneira. Se ficar repetido, fica com a minha cara.

E nos projetos para as lojas da Maria Filó? O que é mais importante?
Tem que conversar com o que é. A Maria Filó é feminina, delicada, dona de um trabalho além do normal, as peças têm um cuidado como se fossem feitas em ateliê. A arquitetura tem que passar essa emoção, esse detalhamento, esse romance. Quase tudo é bordado à mão, cheio de tramas. Em 2003, começamos com a loja toda branca e o grafismo preto dava o contorno, falava dessas linhas, dessa delicadeza. A gente vai experimentando, mexemos na cor dos móveis, evoluindo junto com a marca.

Qual é a sua dica para transformar locais pequenos?
Tem que ter o essencial. Uma sensação de único. O ideal é tentar fazer sob medida para aproveitar mais o espaço, dar essa sensação de um todo, uma coisa única, otimizar o espaço para trazer calma para ele. Qualquer estabelecimento é assim. Ou a calma vem de um projeto mais simples, limpo, sem excesso, ou da união. Um quarto por exemplo. Podemos juntar os móveis, simplificar no pensamento. Brincamos com um lado ou com o outro. Unimos coisas ou não inventamos tanto.

Quando você está em algum local a passeio, fica imaginando o que mudaria? Ou consegue desligar na hora do lazer?
O ideal é ir para a praia se quiser desligar. Hoje em dia estou ficando mais velha, fui aprendendo a relaxar. Trabalhar é criticar. Quando você começa a relaxar, consegue ter bom humor sempre. Quando o ambiente é muito feio, não consigo ficar dentro. Mas é importante conseguir relaxar.

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Foto: Instagram Bel Lobo

O que inspira você?
Cantar. Faço parte de um coral de amigos, o “Couro Come”, desde a época da faculdade. E estou encantada por um cara chamado Ernst Gotsch, especialista em agricultura sintrópica. Estou querendo plantar um jardim.

O que é sofisticação para você?
A sofisticação vem do simples. O Japão, por exemplo, tem essa simplicidade. O simples acalma. Agrada aos olhos. Falando em simplicidade, minha amiga tem uma casinha de pescador, perto do Rio, nunca consegui entender porque ela morava tão longe. Quando conheci a casa, vi que ela era perfeita na simplicidade, na delicadeza, sem preocupação de ser arrumadinha, sem descuido de ser abandonada, na medida da alegria. Foi um relaxamento estar ali.

Alguma coisa que você não usa de jeito nenhum na hora de decorar uma casa? Algum item proibido?
Coisa cara à toa. Adoro as coisas naturais. Porcelanato, por exemplo, todo mundo quer usar porque é prático e o custo é bom. Acabo tendo que usar porque preciso me adaptar ao que tem no mercado e ao que não dá trabalho. Tem coisas que não botaria, mas acabo colocando pela praticidade. Coisa feia e pretensiosa nunca vai ter. Apenas o que traz alegria.

Você vê semelhanças no seu jeito de se vestir e nos seus projetos?
O meu estilo é muito básico. Eu não posso ser tão básica nos meus projetos. Na minha casa sim, tem a mesma cara do meu jeito de me vestir. Mas tem um pouco mais de flores na casa. Eu sou mais de texturas, mas na casa tem flor, tem mais estampa.

Se você não fosse arquiteta, faria o quê?
Antes de fazer arquitetura, eu não sabia o que eu queria, aí eu tive que me matricular em algum curso e escolhi psicologia, mas agradeço de não ter feito. Me interesso pelas pessoas, pelos humanos. Também falava que queria ser dançarina. Adoraria ter feito dança contemporânea. Com 40 anos comprei um piano para ver se eu aprendia a tocar. Algumas coisas me afastaram, mas um dia vou aprender a tocar. Tem uma música do Claude Debussy, chamada “Clair le lune”, que sempre que escutava, me dava vontade tocar piano.

Pingue-pongue:

Bel Lobo 3
Foto: Demian Jacob

Um(a) arquiteto(a)… Lina Bo Bardi. Foi uma mulher incrível.
Arquitetura é… Cercar vazios.
Uma combinação pouco óbvia… Misturar flor com xadrez ou listra.
O maior dos clássicos… Mies van Rohe, pela simplicidade.
Peça curinga no armário… Um vestido com o desenho de um jardim com uma janela. Acabei perdendo, mas ele era meu melhor amigo.
Vício…
 Estou em rehab de comprar coisas vintages, por causa do Decora, mas me curei. Agora meu vício é a natureza, as plantas. Gosto muito de ciências.
Para deixar a vida mais leve… Bom humor. Tudo depende de como encaramos os fatos. Se botar mais peso, pesa mais. Temos que olhar para o céu, para o amor.
Uma frase/clichê mais verdadeiro… meu marido tem mania de correr com o carro. Uma vez, indo para a FLIP, ele estava correndo e citei um trecho do Manuel Bandeira para ele: “Se o caminho é o passeio, o caminho é todo o meio. Se só o fim tem importância, o caminho é só distância”. Ele entendeu tudo. Vamos olhar a paisagem, não pensar no futuro, viver o aqui e agora.
Nos fones (música)…  Ouço tudo misturado. Passo por “Acabou chorare”, dos Novos Baianos, a Debussy, Jack Johnson, Jorge Ben, “Venus as a boy”, da Björk.
Na tela (filme/seriado)… 
Quero ver o novo do Woody Allen e “Aquarius”. Adorei “O som ao redor”.
Na mesa (comida)… 
Tento ser saudável. Tento comido pouca carne.
Na mesinha de cabeceira (livro)…
“Amar e Ser Livre”, do Prem Baba. E “O Rabo da Sereia”, do Mia Couto.
Instagram do momento… Marcos Chaves, meu amigo artista plástico. O da Revista Bamboo.
Conforto ou beleza…
Conforto. Mas a feiura não é confortável.

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