O blog da Maria Filó

Amor às palavras, amor em palavras

Como escreveu Leminski, o amor é uma matéria-prima que o tempo se encarrega de transformar em raiva ou em rima. Pelas mãos pulsantes de Paula Gicovate, o segundo caminho é o único possível. Para a escritora e roteirista, o sentimento se torna alimento para a criação, válvula que ela abre para as memórias desaguarem na forma de palavras que fluem das pontas dos seus dedos até o papel.

Autora de 3 livros, entre eles o mais recente “Esse é um livro sobre o amor” – que está virando roteiro de um filme -, Paula elege os relacionamentos como tema central da sua obra, fazendo com que a gente se identifique com suas narrativas que se debruçam sobre as tantas fases e facetas do amor.

Escrever, para Paula, vai muito além de um hobby. É vital, “minha sanidade”, revela ela. Não à toa, a escritora se prepara para lançar seu novo romance, que conta a história de uma relação amorosa ao longo de anos.

Hoje a artista compartilha conosco um pouco da sua escrita envolvente, conta sobre seu processo criativo e reflete sobre a potência do amor.

Para a Paula, fica aqui nosso desejo de palavras e amores transformadores (e transformados)!

Confira a entrevista:

Conta um pouco sobre sua trajetória. Quando começou a escrever?
Eu sou de Campos dos Goytacazes, uma cidade aqui do Rio de Janeiro, e venho de uma família muito ligada às palavras. Meus avós e seus irmãos sempre escreveram, minha irmã e minha mãe também, então desde criança meu contato com a literatura sempre foi muito forte e estimulado. Vim para o Rio fazer especialização em  Formação de Escritor e para eles essa escolha foi muito natural, não teve um embate porque acho que todo mundo ao meu redor sempre soube que eu não saberia viver de outra forma. Pequena, eu narrava as histórias para o meu avô escrever, porque eu ainda não sabia. A literatura sempre foi minha companhia, a forma que eu encontrei de entender o mundo, de estar nele. Mas sempre digo que não é ter publicado os livros que me fez ser escritora, e sim não conseguir viver de outra forma.

Fala sobre seu processo criativo. Há algum ritual, som, cheiro, lugar que te ajudem a colocar seus sentimentos para fora?
Eu sou muito influenciada pelo cotidiano. Fui fazer uma residência criativa em Barcelona em 2015 e só consegui de fato escrever quando deixei a casa e fui andar na rua. Minha obra é em grande parte sobre relacionamentos, natureza humana, sentimentos, então eu preciso estar na rua sentindo, ouvindo as pessoas, construindo esse repertório que depois me faz escrever. Conversar com meus amigos, pinçar uma frase ou uma história, escutar desconhecidos no café. Eu escrevo sobre o que existe ao meu redor. Geralmente um texto ou um livro novo partem daí, depois vira um trabalho de sentar, reler, escrever mais e ir acessando esse meu arquivo. Eu leio e-mails que escrevi e recebi, vejo fotos, escuto músicas, vou refazendo o caminho dos sentimentos de diversas situações da minha vida e aquilo vai destravando meu processo. Tem textos que saem de um trabalho longo, outros vem num fluxo de pensamento, e eu sempre anoto todos. Tenho muitos pedaços de textos e diálogos em arquivos do meu computador que vem destes momentos.

O amor é um tema recorrente não só na sua escrita, mas também na obra de inúmeros artistas. Por que será que temos essa necessidade de falar sobre ele?
Amor é sentimento físico, é no corpo todo. É a maior coisa que existe, toma tudo, então eu acho que toda expressão artística que vem através dele tem um certo sentido de entender, colocar esse amor no mundo, dar conta de alguma forma. Os relacionamentos me fascinam, tudo o que faz parte deles, os inícios, sempre imbatíveis, o cotidiano de contas e domingos, o fim. Eu gosto de observar como esses amores mudam a gente, porque o amor é a melhor coisa do mundo, mas não é fácil, transforma, e transformação também tem dor.

Todos os seus textos em “Este é um livro sobre o amor” são autorreferentes? Até que ponto você dá voz à multidão de si e até que ponto seus amores são ficcionais?
O ponto de partida do livro foi a vontade de falar sobre o quanto nós somos construídos pelas nossas relações amorosas, sobre como toda relação – as que a gente vive, as que a gente inventa, as que terminam – são válidas por sermos uma junção destes nossos afetos. A maior parte das histórias de amor que eu conto ali tem algo da minha experiência como um todo, mas não sobre pessoas específicas. Nos personagens eu coloquei mais das minhas relações do que dos meus amores.

Falando nisso, você também escreve roteiros de programas de TV. Como é esse processo, muito diferente de escrever de si? Como você lida com a obrigação de escrever?
É um processo bem diferente. Um roteiro de ficção acaba sendo muito mais libertário para mim do que um livro. Na literatura eu sou muito mais autocrítica, demoro, questiono, reescrevo, nos roteiros eu permito que eu e o personagem mudemos muito mais de ideia, é um trabalho mais fluido, mais leve. O livro é um mergulho muito mais profundo, principalmente porque meus textos têm a ver com relacionamentos, amores, questões que são muito minhas também. A obrigação de escrever o roteiro todo dia é bem mais tranquila do que sentar para escrever meu romance. No livro eu entro em contato com lugares que nem sempre o roteiro acessa.

Você é do tipo que adora um amor inventado como válvula para a criação?
Já gostei mais (risos), mas acho que de forma inconsciente. Nunca busquei um amor com o propósito de escrever, mas muitos textos vieram daí.

Como você sente sua escrita se transformando ao longo do tempo?
Sim, ela mudou muito. Às vezes eu pego meu primeiro livro para reler e percebo uma escrita muito mais intensa, cheia de fluxo de pensamento, urgente. Hoje em dia, meus textos dormem antes de serem publicados. Ele continuam muito vivos, porém são feitos de forma mais pensada. Outros ainda saem num espirro, e gosto deste processo, mas hoje em dia duvido mais do que escrevo com muita rapidez.

Você está se preparando para lançar seu próximo livro. Conta um pouco sobre esse projeto.
Sim, estou terminando um novo romance que tem como pano de fundo uma relação amorosa ao longo de anos. Comecei o livro na residência que fiz em Barcelona, então parte da narrativa se passa lá. É fragmentado como o primeiro, mas desta vez foca em uma história só, com dois personagens centrais.

E seus dois primeiros livros? Também permeiam o amor?
“Sobre (o) tudo que transborda”, meu primeiro livro, é de contos que falam de amor. É um livro de formação literária, e de quem eu iria me tornar. Estava morando no Rio há pouquíssimo tempo, tem muito a ver com essa descoberta do amor quando você já mora sozinha, com as questões sendo outras, com esse encantamento da cidade nova e da própria solidão. “D4”, compilação de contos de um blog que tive por anos com três amigos de infância, veio logo depois do primeiro. Sempre escrevi em blog e dei muita força para que os autores experimentassem essa plataforma, foi legal ter tido um livro que saísse dessa experiência.

Ficamos sabendo também que você tem um projeto do filme do seu livro.
Sim, é o “Este é um Livro Sobre Amor”, estou escrevendo com a Vera Egito, que também será diretora do filme. Acabamos a escaleta e a ideia é rodar agora em 2019. Tem muitos amigos envolvidos no processo, como a própria Vera e a Maria Ribeiro.

Muitos escritores escrevem sobre gatos. Acredita que introspecção deles é um convite à escrita?
É uma pergunta boa justamente porque eu sou apaixonada por gatos, tenho um, chamado Meliante, que é completamente antissocial e só chega perto de mim à noite, para dormir. No dia seguinte finge que não me conhece porque sabe que vou agarrá-lo. Mas a tranquilidade dele me inspira, de fato. Gosto de escrever olhando o Meli deitado no sofá, num mundo sem nenhuma urgência.

Fala um pouco sobre você: características, curiosidades que você não passa para o papel…
Espiritualidade é uma fator enorme na minha vida, me dedico bastante à minha religião, que é a Umbanda, e também ando apaixonada por astrologia. Tenho um grupo de amigas que estuda com a astróloga Isabella Heine (leia aqui nossa entrevista com ela), e têm sido muito bonitos esses encontros. É engraçado porque a minha fé e esses estudos são superimportantes para mim, mas acabam não transparecendo na minha obra, então quase ninguém sabe.

O que gosta de fazer nas horas vagas?
Comer. Conhecer restaurantes e cozinhar, um hábito recente, mas que ando apaixonada. Fora isso, leio (tenho lido muitas histórias em quadrinhos nos últimos anos), vejo muitos filmes e caço os shows das bandas que eu gosto.

Pingue-pongue:
Escritor(a) do momento… Giovana Madalosso.
Uma trilha-sonora para escrever… Wilco, National, Mogwai.
Uma frase… “Por afrontamento do desejo, insisto na maldade de escrever”, Ana Cristina César.
Um livro… A Teus Pés, Ana Cristina Cesar.
Um texto seu… O primeiro capítulo de “Este é um livro sobre amor”.
Um(a) roteirista… Vera Egito.
Escrever é… O que me define, minha sanidade.
O amor é… A coisa mais bonita do mundo, mas não é fácil. Amar requer coragem.

  • Tags

  • Representar sonhos, desejos e movimentos em forma de manifestações art...
    saiba mais
  • Pedalar para o mundo girar em equilíbrio. É com esse propósito que lan...
    saiba mais
  • Lugar de menina é onde ela quiser, inclusive em postos de liderança e ...
    saiba mais
  • compartilhar post

    posts relacionados

      MARIA FILÓ © 2017 Todos os direitos reservados.