Especial Outubro Rosa

Às vezes é um filme que traz uma mensagem do bem, em outras são iniciativas bacanas que nos ajudam a superar momentos difíceis. Quando eles surgem, nada como buscar informação, além de cuidar do corpo e da mente, afinal os dois são indissociáveis e trabalham juntos para nosso bem-estar.

Manter a positividade é como um remédio, defende a psico-oncologista Jéssica de Riba, responsável pelo Grupo Conviver, projeto de apoio psicológico da São Carlos Saúde Oncológica. Hoje conversamos com ela, que dá conselhos para enfrentar o câncer com otimismo e troca de experiências.

Confira a entrevista:

Qual é a importância do acompanhamento psicológico durante o tratamento?
Tão importante quanto a busca por novos medicamentos e tecnologias de enfrentamento ao câncer é encontrar maneiras de ajudar o paciente a lidar com o diagnóstico. Ainda que parte dos tumores malignos tenham bons prognósticos, o câncer tem um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, por isso a importância do acompanhamento psicológico desde o diagnóstico. Em alguns momentos, o simples fato de oferecer à pessoa um espaço onde ela possa falar de seus sentimentos e expectativas frente ao câncer pode fazer com que novos significados sejam dados à vida. O papel do psicólogo consiste em trabalhar suas vivências e possibilitar ao paciente a compreensão do seu processo de vida e de adoecimento, além do enfrentamento do diagnóstico, do prognóstico e da construção de um espaço para resgatar seu valor enquanto ser humano. Esse é o trabalho que fazemos com os pacientes do Grupo Conviver na São Carlos.

Como lidar com o diagnóstico? É comum a oscilação entre momentos de negação e otimismo?
Não existe uma fórmula mágica para lidar com o diagnóstico, a oscilação de humor é comum e, em sua maioria, as pessoas precisam de algum tempo para se ajustar ao fato de que estão com câncer. Precisam de tempo para pensar no que é mais importante em suas vidas e aceitar o apoio de seus familiares e amigos. Para muitos, este é um momento emocionalmente difícil e por isso sentimentos como raiva, medo, choque e descrença podem ser comuns.

A feminilidade de muitas mulheres fica afetada durante e após o tratamento. Quais são as dicas que você dá para elas nesse momento?
Se enxergar em uma nova imagem corporal, aprender e aceitar seu corpo durante e após o tratamento do câncer de mama é uma jornada pessoal e diferente para cada mulher. A questão da feminilidade pode ser bastante auxiliada com a busca de informações e também com a busca de grupos de apoio mútuo, que enriquecem as trocas de experiências e vivências.
Procurar informação e entender que sexualidade vai muito além do próprio ato sexual é importante, assim como o apoio do (a) companheiro (a) e compreensão de que cada um tem seu próprio tempo.

Quais outras dicas você dá para quem enfrenta o tratamento?
A experiência do câncer é única para cada um dos pacientes. O momento mais difícil costuma ser o pós-diagnóstico, assim como durante as diferentes etapas do tratamento – cirurgia, quimioterapia, radioterapia e possíveis recaídas. Pesquisas realizadas nos últimos anos concluíram que pacientes otimistas, em geral, têm resultados mais positivos no tratamento oncológico. O emocional gera uma alteração negativa de hormônios que interfere até no tratamento. Pacientes emocionalmente bem enfrentam a doença de forma mais tranquila.

1. Não tenha medo da informação. É importante manter-se informado sobre o andamento do seu tratamento. Isso ajuda a compreender como será o caminho para enfrentar o câncer.

2. Busque apoio nas pessoas que você ama.

3. Procure apoio também em pessoas que passam por situações parecidas.

4. Esqueça as estatísticas, resista à tentação do “Dr. Google” e peça informações ao seu médico, ele melhor que ninguém conhece seu caso.

5. Não pare sua vida por causa do câncer, manter a normalidade é fundamental para a saúde mental.

6. Muitas pesquisas também apontam que a meditação mindfulness, por exemplo, ajuda no tratamento ao reduzir os hormônios do estresse e aumentar a sensação de bem-estar, além de ajudar a regular o sistema imunológico. Fé também traz benefícios similares.

Você indica que as pacientes continuem a rotina durante o tratamento? Ou é importante dar uma pausa?
Manter a normalidade é importante para a saúde mental quando nos deparamos com um diagnóstico de câncer. Ocupar a cabeça com problemas que vão além do consultório médico faz toda a diferença no equilíbrio emocional.

Quais dicas você dá para familiares e amigos de quem enfrenta o câncer de mama?
Sabemos que o diagnostico de câncer abrange não só o paciente, mexe com toda estrutura social e familiar. Normalmente, orientamos que os familiares:
– Mantenham-se informados sobre o que está acontecendo;
– Cuidem também da própria saúde, é muito comum que no cuidando do outro o familiar se esqueça dele;
– Cuidem dos seus sentimentos e, se necessário, procure ajuda profissional;
– Consigam dar carinho e entendam que a perspectiva do paciente foi modificada (saúde/doença), assim como o timing;
– Ofereça ajuda, saiba ouvir e principalmente se permita chorar e permita o outro chorar. É importante saber que altos e baixos emocionais são comuns e que tanto o familiar quanto o paciente podem ter vontade e devem chorar.