O blog da Maria Filó

Sobre ser mulher: como a gente consegue?

A pergunta que não quer calar

Não lembro a data certa, mas lá pra 2013/2014, eu já tinha 3 filhos pequenos (os gêmeos certamente tinham menos de um ano), e estava totalmente reinserida na rotina de trabalho. Eu tinha um pequeno escritório criativo no Rio, onde, basicamente, escrevia, montava apresentação e negociava custo e cronograma.

Dito assim, parece uma atividade controlada. Mas como todo prestador de serviço, eu vivia sob a liturgia dessa divindade chamada cliente. E isso era suficiente para zoar qualquer tentativa de organização pessoal ou controle de horário. Além de um expediente que tantas vezes adentrava a noite, eu viajava muito pra SP – uma ponte aérea sempre subestimada. Quem fala “ah, é rapidinho! Leva menos de uma hora entre RJ e SP”, não contabiliza o trânsito de chegada e partida de cada aeroporto. Além de todo o circuito de filas que incluem check in/detectores de metais/embarque (isso sem contar taxi, revista e pão de queijo).

Enquanto passava essas horas prolongadas no trabalho, eu tinha o valioso suporte de pelo menos 3 mulheres se revezando na minha casa pra dar conta da limpeza, comida e cuidado com as crianças. Contar com o trabalho delas era naturalmente custoso. Mas com alguma ginástica financeira, era pagável. E, de mais a mais, era o único jeito possível de seguir trabalhando como eu fazia antes dos filhos.

Num final de tarde desse período, na volta para casa, dei carona para uma amiga mais nova, solteira e sem filhos. No meio de um daqueles engarrafamentos infinitos da Lagoa, aproveitei a inércia do trânsito e alcancei minha nécessaire de maquiagem para dar uma retocada no corretivo, batom etc, já que eu ia emendar noutro programa.

Essa amiga perguntou:
– “Sério, como você consegue?”
– “O quê?”
– “Ser mulher. É muito trampo, né?”

Ela, assim como eu, é mulher. E eu entendi que naquela micropergunta tinha admiração e curiosidade. E, mais que tudo, tinha aquele olhar solidário de quem se coloca no seu lugar. Não me lembro se a gente só riu ou se emendou numa teoria. Mas hoje, passados sete anos, minha resposta mais honesta seria: eu não consigo, né?

“As fotos da festa ficaram ótimas”

Assim como a maioria das mulheres da minha geração, eu tentava – e ainda tento – assoviar e chupar cana. Montar powerpoint e picar banana. Fazer imposto de renda e cortar a própria franja. Para quem assistia de fora, até parecia que estava tudo em ordem (as fotos no Instagram ficavam ótimas), mas só eu sei que muito fio ficava desencapado, muita coisa dava errado. E, lógico, tudo o que dava certo só era possível porque eu contava com o trabalho daquelas outras mulheres. Mas elas certamente também se desenrolavam para gerenciar suas próprias logísticas em suas casas. E ainda manter o pleno funcionamento dessas várias famílias (a minha + as delas).

Entre o cortador de grama e o babyliss

Mudei para os EUA em 2015 e, embora ainda tivesse alguma ajuda, precisei inventar uma outra mulher para ser. Além do trabalho que eu continuava desempenhando remotamente, meu tempo ficou sujeito aos horários de saída das escolas. Subitamente precisei operar outras máquinas que se somaram ao laptop: aspirador, secadora de roupas, liquidificador, bomba de gasolina e aparelho de depilação.

Adoraria ter outra história para contar e fingir que isso é só a descrição da vida adulta, mas não é. São muitas as diferenças entre a vida adulta de um homem e de uma mulher. Depois de 4 anos nos EUA, fui para Portugal e, mais uma vez, precisei desenvolver uma nova rotina. Em comum, em todas elas, uma certeza: mulher rala muito.

Claro, o tipo de ralação muda de um país pro outro, de uma fase da vida para outra, e de mulher para mulher. Mas essas vivências me ilustraram de um jeito muito prático o quanto ainda precisamos avançar nas discussões não só sobre feminismo, mas sobre… feminino.

Mais poder, por favor

Boa parte dessa jornada multitask que a gente tenta levar parece que faz parte das escolhas pessoais, mas ainda é herança de um superpresente de grego. Em algum lugar da história ou deliberadamente não tivemos opção ou nos fizeram acreditar que seria um bom negócio ocupar-se da casa e/ou das crianças (sendo musas e plenas e o mais jovem possível, claro) enquanto escolhiam tudo por nós.

E na medida em que a cozinha, a família e a beleza foram propagandeadas como competências naturais da mulher, o direito de fazer dinheiro, envelhecer em paz e tomar decisões foi ficando cada vez mais masculino. Não é à toa que a gente ainda tem que comemorar muito quando tem uma astronauta num foguete. Quando uma mulher é eleita primeira ministra. Quando alguém bota publicamente para jogo a celulite, a barriga positiva, o cabelo branco.

Piscininha, amor

É comum descrever o machismo como uma piscina em que estamos todos submersos, inclusive nós, mulheres. Por maiores que tenham sido os avanços dos últimos anos, é difícil fazer parte desse tempo e não guardar algum machismo em si. É natural que a gente ainda tenha que prestar atenção em nós mesmas para questionar, de tempos em tempos, se estamos vivendo nossa melhor potência ou se a cultura entranhada no nosso pensamento ainda nos limita.

E se estamos fazendo o que de fato queremos ou seguindo o que manda o figurino (essa, por sinal é ótima metáfora – ou tem coisa mais opressiva que um espartilho? Obrigada, universo, pela evolução do pensamento e da modelagem feminina. E pela criação do elastano, é claro).

Sinceramente, não consegui ainda definir nem pra mim mesma qual é nosso melhor jogo possível, enquanto mulheres. Leio bastante, procuro me informar e engrossar as discussões, estou atenta às muitas formas de provocar mudanças e patrulhando meus próprios hábitos.

Ainda não sei dizer, por exemplo, até onde vai a genuína busca pela beleza e quando começa a paranoia por uma estética que existe para garantidamente não satisfazer ninguém. Afinal, quanto mais insatisfeitas, melhores consumidoras seremos de corretivos, alisantes, branqueadores, harmonizações e filtros digitais.

Não sei até onde é humanamente possível e socialmente acessível trabalhar para ter autonomia financeira sem comprometer nossa liberdade no sentido amplo. Ou seja, fazer dinheiro trabalhando com o que gostamos/escolhemos. E ainda ter tempo para tudo mais da vida. Que pode ser botar o filho para dormir, levar o crush para um date ou pegar um cinema sozinha numa terça-feira. Nosso cobertor é muito curto. A gente está sempre cobrindo de um lado e descobrindo o outro.

Militância para baixinhos

Enquanto não equaciono a métrica ideal e realista desse cobertor, procuro ser a melhor influência possível na minha micro bolha caseira. Um exercício que não é só meu, mas também do marido. Nossos filhos, dois meninos e uma menina, são convocados para viverem as mesmas experiências.

Na prática, isso significa que todos são igualmente responsáveis pelas tarefas. Levar a louça à pia, arrumar as próprias camas, dobrar suas roupas. E todos têm livre acesso a qualquer brincadeira – incluindo panelinhas, carteado e maquiagem.

Com os meninos, meu pequeno manual pessoal de militância e vigilância significa pregar por mais compaixão e sensibilidade. Repito quantas vezes for necessário que a figura do machão é muito cafona. E que meninos podem, sim, se emocionar com nuvens, bichos, músicas.

Com a minha filha, tento liberá-la da neura da beleza perfeita, festejando especialmente seus outros talentos – mas adianto que não tem nada dominado aqui, gente. Esse desafio de ser mulher AND formar novas mulheres AND formar novos homens compatíveis com essas mulheres muda o tempo todo. Cada dia é um fantasma diferente de “meninos vestem azul/meninas vestem rosa” para exorcizar. É um “loira burra” para desconstruir.

Mas, embora seja longo o caminho, sinto que aos pouquinhos a mudança avança. Até porque a matemática está a nosso favor: somos metade do planeta e mães da outra metade. Temos tudo para inventar um jeito mais legal e respeitado de ser mulher. É só seguirmos atentas, com raça. Vai rolar, gente.

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